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segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Revolução da Comunicação - Fernando Buen Abad


Revolução da Comunicação
Dr. Fernando Buen Abad Domínguez

Nicolas Maduro dá Voz a um Clamor Mundial
 “Caminhemos para a Revolução Comunicacional em Mídias,
Finalmente há um estadista que põe a “Comunicação” na sua agenda de prioridades com uma chave revolucionária, isto é, com a premissa de que são urgentes mudanças profundas e imediatas com extensão planetária e resposta histórica contundente. Talvez como o sonhou o Movimento dos não Alinhados em 1973 ou como o via o “Relatório MacBride” em 1980. “Um só mundo, vozes múltiplas”.
Ocupar as paredes, as redes, as ruas e os mídia. Nos bairros, nas escolas, nas fábricas... tornar visível o sentimento e o pensamento dos povos. Assumir a vanguarda da semântica, da sintaxe e da “Batalha das Ideias” revolucionárias. Renovar as técnicas, renovar a imaginação, renovar a poesia da luta: mas unidos, convertidos em força global, convertidos em factor decisivo e organizador para que nunca mais sejamos silenciados perante as acometidas (impúdicas e impunes) do avassalamento monopólico mundial. Como podemos ficar do lado de fora?
Não se trata de uma ocorrência de conjuntura. Sofremos episódios sistemáticos de abuso delinquencial contra a vontade democrática do povo venezuelano, por exemplo, desde que a sua revolução deu início a transformações decisivas e exemplares. Cometeram-se atropelos e agressões escandalosos que não mereceram denúncia nem castigo das organizações internacionais que se auto-proclamam defensoras da “liberdade de expressão” ou da “independência dos meios de comunicação”. Silêncio absoluto da UNESCO, do SIP, da OEA... silêncio da FELAFACS, da INVECOM... em suma, silêncio dos organismos e associações de profissionais que deveriam ter resposta rápida contra todas as formas de golpismo mediático. Nem uma palavra sobre o grotesco diário espanhol “El País” que, por exemplo, publicou a fotografia de uma pessoa num bloco operatório e a promoveu (com conhecimento da sua falsidade) como a imagem de Hugo Chávez. Há exemplos terríveis desta envergadura. E nada se passa.
Maduro estendeu a convocatória revolucionária ao mundo inteiro. Ele sabe muito bem que os abusos mediáticos não se reduzem a um único país e que enquanto se fortalece a aliança mediático-militar (a NATO mediática) os povos são silenciados e as democracias correm perigo. Há que ver como, por decisão arbitrária e pessoal de um presidente, se apaga de um golpe de caneta uma “Lei de Imprensa”, como aconteceu na Argentina. Há que ver como avança o poderio tecnológico baseado numa assimetria grotesca nas condições e oportunidades para que os povos acedam a uma tecnologia sustent-el﷽﷽﷽﷽﷽﷽﷽idades para que os povos acedam a uma tecnologia sustent de Hugo Chhavez.sejamois silenciados-el﷽﷽﷽﷽﷽﷽﷽idades para que os povos acedam a uma tecnologia sustent de Hugo Chhavez.sejamois silenciadosável sem a extorsão da caducidade programada pelo mercado.
Maduro entendeu a necessidade de uma Revolução da Comunicação que abarque o ensino, que torne visíveis – e ensine – as lutas históricas dos povos e a sua herança simbólica poderosa e vivificante. Ele entendeu a urgência de renovar as agendas e de as potenciar a partir do que pensam e sentem os povos e não dos interesses dos publicistas, dos comerciantes ou dos governantes serventuários do modelo de mercantilização desaforada. Maduro pôs o dedo numa ferida dolorosa e profunda que expressa um erro e uma das debilidades mais sofridas pelos nossos povos. Indicou um rumo e uma modalidade de trabalho que, no seu carácter contemporâneo, recolhe as heranças de gerações e as põe a reflorir quando muitos julgavam que o silêncio e a resignação nos derrotariam para sempre.
É verdade que não basta uma convocatória por mais sentida que ela seja. Exige-se agora um programa com princípios humanistas revolucionários capazes de modelar acções e metas para o curto, o médio e o longo prazo. É preciso haver coordenação e unidade imediata. Impõe-se a formação de uma Frente Única Internacional capaz de superar sectarismos e pessimismo. É necessário trabalho político imaginativo e confiável, percorrendo portas e ouvidos para articular e salvaguardar as mais diversas identidades num esforço de unidade do diverso que nos permita trabalhar juntos nas coincidências, sem que as divergências nos imobilizem. Uma revolução dentro da revolução.
Não há tempo a perder. Os impérios mediáticos re-acomodam-se diariamente, aliam-se, compram-se entre si, expandem-se... E não poucos operam como armas de guerra ideológica mercantilista e inumana. A Revolução da Comunicação que Maduro convoca enfrenta o desafio de aprofundar a crítica do modelo mediático dominante e assume a tarefa de impulsionar o nascimento da “Nova Ordem Mundial da Informação e da Comunicação” do século XXI. Isso exige povos em luta com semiologia, epistemologia e tecnologia emancipadoras. Isso requer “moral e luzes” revolucionárias onde não se admitam reconciliações nem reformismo. Onde não se admitam burocracias nem demoras. Uma etapa nova da Pátria Digital Emancipada, da Revolução do Espírito e a Revolução que aguardam a sua oportunidade para se concatenarem numa só Revolução mundial e a partir de baixo.
É claro que a única maneira de evitar que uma tal convocatória não seja mais do que isso e se torne realidade concreta, é agir de imediato e massivamente. Não há tempo para regateios nem para especulações. Jogos de sedução para se fazer desejado implicam irresponsabilidade suprema filha de uma egolatria perversa que já nos custou derrotas e humilhações ferozes. Estamos fartos dessas manias de esquerdismo infantil. Esta convocatória de Maduro deve amadurecer liberta de uma prédica messiânica com o “culto da personalidade” que foi vício de medíocres. Há-de amadurecer na refrega da luta de classes, na construção social que, desde as bases, dêem sustento e coerência revolucionária a todos os episódios e às tarefas que urgem no imediato e no mediato. Não podemos esperar nem mais um minuto.
Demos as boas-vindas activas a tal chamada, à sua hierarquia e ao seu valor político sem retroceder um único passo nas conquistas ganhas, até este momento, por todos os que lutam honradamente e minuto a minuto para pôr as ferramentas e os conhecimentos em matéria de Informação e Comunicação ao serviço das tarefas supremas  desta hora: travar as guerras, salvar o planeta e salvar a humanidade num mundo sem amos, sem escravos, sem classes sociais e com vozes múltiplas dignas que falem de futuro e felicidade para todos. Nada menos. Aprovado.

sábado, 21 de janeiro de 2017

O estado da arte...

Talvez para a esmagadora maioria dos cidadãos tenha passado desapercebido o 4º Congresso dos jornalistas. O que seria estranho, se não fosse de esperar. Terá a ver com o estado da arte...
Pelo nosso lado, quisemos informar-nos junto de quem tem a profissão de informar.
Neste relato, encontrámos resposta.
Triste. Preocupante. Transcrevemos. Apesar de extenso (porque vivido e sentido...) vale a pena ler.

TERÇA-FEIRA, 17 DE JANEIRO DE 2017
4º Congresso dos jornalistas: a fera amansada
Não me apetecia escrever sobre isto. Mas acho que deve ficar descrito.
De 6ª feira a domingo, e apesar da falta de tempo para os congressistas falarem (leia-se aqui), foi traçado um retrato pesado do que se passa nas redacções deste país.
Redacções depauperadas, despidas de pessoal mais velho, afastado por diversas razões; ritmos insanos de trabalho que mal dá tempo para pensar; uma multiplicação de plataformas para que se deve trabalhar, a um ritmo maluco, que cada vez mais transforma as redacções em linhas de montagem; uma agenda omnipresente que homogeniza a informação; um esvaziamento de conteúdo crítico das notícias produzidas, em detrimento de um trabalho jornalístico profundo, com investigação mais lenta que ponha em causa os verdadeiros problemas e que ainda por cima – como foi afirmado por directores de informação – até tem mercado; a fragilização contratual das redacções e a redução brutal dos salários, desadequada à qualificação crescente dos profissionais; precariedade que gera medo, pela perda do emprego, que pode ser substituído em elevada rotatividade por mão-de-obra jovem, mobilizada para a “produção de conteúdos”; e a cada vez maior interferência nesses conteúdos por parte das administrações, das direcções de informação, num progressivo condicionamento da informação; tudo isso faz perigar o trabalho jornalístico.
No Congresso participaram em média uns 300/400 jornalistas e bastantes dezenas de estudantes de comunicação, numa classe de 6 mil jornalistas.
E de cada vez que havia um depoimento, a descrever o que se vivia, as palmas elevavam-se numa ovação.
Os registos emocionais conquistavam a plateia. Parecia uma catarse, longamente acumulada e necessária de ser feita. Uma catarse que importava ser afunilada pelo Congresso, para um ponto, de modo a que se forjasse as condições de inversão deste terreno inclinado.
Mas os jornalistas não são dados a posições de força. Nem em defesa do respeito próprio. Os jornalistas têm um receio endémico que os leva a fazer coisas e a não fazer outras, tudo na direcção de uma letargia individual, de se deixar espezinhar em nome de qualquer coisa egoísta, sem orgulho de classe, sem nobreza de alma. Em geral, não se dão ao respeito.
E o que se passou no último dia de congresso foi um exemplo flagrante.
Depois de sessões dedicadas aos mais variados aspectos, em que houve tempo até para 19 directores de informação ou assessores de imprensa e agências de comunicação, o voluntarismo amador da comissão executiva do Congresso levou-a a programar apenas 3 horas (das 14h30 às 17h30) para apresentação, discussão e aprovação de propostas dos congressistas.
Pior: encavalitou a seguir a essas três horas (às 17h30) um “debate de encerramento” com o patronato, com o ministro da tutela, com a ERC, a Comissão da Carteira e o Sindicato dos Jornalistas.
A comissão executiva foi avisada antes de tudo de que o tempo era insuficiente e nada fez.
Quando criticada por ter posto a encerrar o Congresso o patronato responsável por todas as situações que se vivem nas redacções, foi dito que era a forma de os confrontar. O debate chamava-se: “E agora?” Mas aquela programação levantou polémica e durante o Congresso, por várias vezes, a comissão executiva esclareceu que esse debate não fazia parte do Congresso, que o Congresso se encerrava com as votações das propostas. Ou seja, era secundário.
Iniciou-se então o plenário para discussão e aprovação de propostas. A mesa não tinha qualquer experiência de condução de assembleias. E havia mais de 40 propostas.
Bastava ter feito contas simples para perceber que só a votação levaria mais de uma hora. E já nem se fala da sua discussão.
Usou-se uns 90 minutos a discutir a resolução final da comissão executiva. E que se chamava "final", antes mesmo de se aprovar as ditas propostas... Mas tudo bem, siga! Houve propostas alternativas ao texto da resolução, houve discussão boa e chegou-se a um texto final de consenso, aprovado por unanimidade.
Mas depois restavam outros 90 minutos para aquelas dezenas de propostas. E a comissão entrou em pânico: era claro que não haveria tempo, por causa do debate com o patronato.
O que foi feito? Em vez de telefonar aos convidados para os avisar que o debate ficava sem efeito por falta de tempo, a comissão executiva – com o argumento de “temos de ser responsáveis, convidámos as pessoas...” - tentou ingenuamente acelerar os trabalhos.
Limitou-se o tempo de intervenção a dois minutos. Mas, depois, a mesa quis votar uma suspensão dos trabalhos até o debate acabar. Face à recusa dos congressistas, propôs-se a simples votação das propostas, sem qualquer discussão.
Algo que eu nunca vi, nem mesmo nos tempos agitados do PREC...!
Um membro do Sindicato protestou. E a presidente da comissão executiva perdeu a cabeça e reagiu: "Estás a perder tempo!". Quando vários congressistas reagiram contra – poucos, entre os quais o ex-presidente do Sindicato Alfredo Maia e onde eu estive – a presidente da comissão executiva respondeu: “Já tiveram tempo mais do que tempo suficiente de ler as propostas que estiveram na Cloud durante o congresso. Desculpem, mas não vou fazer outro congresso”. O Alfredo Maia disse que queria pronunciar-se sobre 18 propostas. Os congressistas viraram-se contra esse grupo. Um membro da comissão organizadora, de cabeça perdida, acusou o ex-presidente do Sindicato, com algo assim: "Tu só queres é boicotar o debate dos patrões".
 Outros disseram que era o PCP a movimentar-se. Os ânimos azedaram.
Ou porque os ditos convidados estavam à espera, ou porque os congressistas não quiseram ter uma noite de trabalho (ao pé de mim alguém disse: "Nunca mais saimos daqui"), a maioria da assembleia aprovou a votação das propostas, de imediato, sem qualquer discussão...
E começou a votação, proposta a proposta. Mas a coisa não foi fácil. Votar 40 e tal propostas leva tempo. Não se pode votar tudo em bloco.
Ao fim de meia hora, um conhecido congressista - que saíra entretanto e deve ter encontrado os "convidados" no hall do S.Jorge - veio interromper os trabalhos e dizer que era inadmissível que os convidados estivessem lá fora à espera. A mesa informou que estava de mãos atadas pela decisão da assembleia: “Tem de ser”, disse o presidente da mesa. E continuou-se. O congressista saiu da sala, enfurecido.
Os jornalistas que tanto andaram a falar no Congresso que era necessário abrandar, aceitar o jornalismo com tempo, maturar, digerir, foram os primeiros a aprovar a mata-cavalos, sem debater consequências ou validade - até legal - das propostas. Era preciso fechar já, como se fosse um
 deadline. E depois logo se via.
Mesmo sem discussão, os trabalhos derraparam para as 19h-19h30. Mais de duas horas sobre a hora combinada do debate. Os congressistas saíram da sala e desmobilizaram.
 
Lá se montou então o palco e lá se chamaram os congressistas para dentro...
E o que aconteceu? O previsível.
1) Com oito pessoas em palco e um moderador, o debate não teve quase contraditório, à excepção do feito pela presidente do Sindicato. Os congressistas não tiveram espaço para colocar questões. O Congresso que aprovara uma moção a dizer que os jornalistas não deveriam aceitar conferências de imprensa sem perguntas, ficaram calados e tornaram-se numa assistência dócil, impávida. Todo o trabalho de moderação coube a Carlos Andrade que fez o papel de anfitrião, tal e qual como no programa televisivo Quadratura do Círculo. Que estranho.
 2) Algumas entidades patronais privadas – representadas por Francisco Balsemão (Impresa) , Proença de Carvalho (Global Media), Rosa Cullel (Media Capital), Américo Aguiar (Rádio Renascença) – tiveram a ousadia de lembrar o atraso acontecido. Balsemão disse qualquer coisa como: “Se o atraso foi provocado para que nos fôssemos embora, não surtiu efeito. Estamos aqui” . E esta frase arrebatou fortes palmas da assistência! Noutra ocasião, Balsemão disse algo parecido – “já que me fizeram esperar, falo mais um pouco” – e a assistência riu...
 
3) Sobre a precariedade em que se vive e que o Congresso tanto assinalara emotivamente, as entidades patronais disseram que era um mal necessário porque as empresas estavam numa tempestade perfeita entre a revolução tecnológica e a crise económica, que tudo levava à necessidade de embaratecer custos... E que tudo tinha de ser feito para defender as empresas, para que a precariedade de hoje pudesse diminuir a prazo. E a assembleia manteve-se em silêncio. Nem um ui. Tudo muito bem educado.
4) A presidente do Sindicato, com todo o capital que recolheu das sessões, em quem centrou os seus ataques? Na televisão pública. E fê-lo nas suas duas intervenções. Quase se assistiu a uma demissão em directo, com o ministro a dizer que os
 falsos recibos verdes da RTP eram da responsabilidade da administração e o presidente do conselho de administração a lembrar que a lei não lhe permitia contratar gente e que ainda tinham missões acrescidas. O sector privado mal foi beliscado e o único aspecto referido pela presidente do Sindicato foram os ilegais estágios curriculares de seis meses no grupo Impresa... Mas mereceu muitas palmas da plateia.
Nem uma pergunta por exemplo, sobre as consequências até para as empresas de se ampliar a espiral recessiva cortes de pessoal
degradação do produto baixas receitas corte de pessoal. Ou sobre todos os casos humanos retratados, ou até sobre quanto ganhavam as pessoas que ali estavam sentadas, face aos salários mais baixos praticados. Por exemplo, a Rosa Cullel da TVI ganha 500 mil euros anuais! Muitas dezenas de vezes mais que o salário mais baixo da sua televisão. Acharia ela que esse fosso é uma boa medida de gestão? Não, essa questão seria considerada demagógica pelos patrões e não foi feita. É melhor sermos civilizados. Ainda voltarei a este assunto noutro post.
Saí com uma sensação de que pouco vai servir tanta catarse que ali foi feita durante dias, porque na hora da verdade, os jornalistas sabem o que fazer.
Já a caminho de casa, encontrei pessoas que vinham a sair. E uma delas, um director, disse:
- Ficou claro que havia ali um grupo ligado ao PC que insuflou o número de propostas para impedir que a sessão dos patrões se realizasse...
 - Mas achas mesmo – perguntei eu - que foi uma estratégia propositada para apresentar propostas artificiais, só com esse fim?
- Sim, pareceu-me evidente – respondeu ele.
E ao que me disseram não foi uma visão isolada. E que terão achado bem aprovar propostas sem as discutir. Para se despacharem... É assim o jornalismo. Não queriam um congresso: queriam um
 evento...
Tenho pena desta classe. Talvez aquilo que alguns congressistas qualificaram de “exploração” e de “extorsão” leve a parte proletarizada desta classe – nas palavras da Diana Andringa - a organizar-se devidamente. Porque temo que o episódio deste fim de semana seja um prenúncio de que a classe média/alta do jornalismo sabe onde está.
Algo morreu nesta noite. Ou, se calhar, nunca chegou a renascer verdadeiramente.


POSTADO POR JOÃO RAMOS DE ALMEIDA ÀS 17.1.17 

EM

Ladrões de Bicicletas


quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

O grau ZERO da decência...

... ou o ponto de saturação da INDECÊNCIA;


"... Sobre o processo de nacionalização, ideia lançada na última semana por Mário Centeno e Francisco Louçã, entre outros, ...!"
(no Expresso curto acabadinho de ler em email)

Isto depois de tudo o que o PCP tem dito, escrito, proposto na AR em sede legislativa.

sábado, 7 de janeiro de 2017

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

FARTOS DE SERMOS TRATADOS COMO ESTÚPIDOS

Foi hoje escolhida a palavra do ano. Durante semanas, as redações receberam comunicados de uma votação online promovida por um grupo editorial e, esta manhã, os resultados foram anunciados numa conferência de imprensa. Vários meios deslocaram jornalistas, fotógrafos e repórteres de imagem para o evento. À hora de almoço, as televisões reuniram comentadores em estúdio para debater o assunto. Aquela podia ser uma notícia, sim, mas no máximo uma breve. Para a maioria dos cidadãos, a escolha de ‘geringonça’ para palavra do ano tem pouco interesse. Se calhar não tem mesmo interesse nenhum. Mas este é um exemplo que mostra tudo o que se passa de mal com o jornalismo de hoje.
‘Geringonça’, recorde-se, foi a expressão utilizada pelo cronista Vasco Pulido Valente para definir o acordo parlamentar da esquerda. É uma palavra com uma conotação negativa e, se um cronista podia utilizá-la, os jornalistas nunca poderiam fazê-lo. O trabalho dos jornalistas é fornecer aos cidadãos a informação rigorosa de que estes precisam – para poderem formar, esclarecidamente, a sua própria opinião. No entanto, os informadores passaram a utilizá-la despudoradamente, condicionando assim os leitores. E não podemos deixar de pensar nisto quando vemos que as pessoas que deixaram de confiar na imprensa, que não encontram hoje utilidade no que leem, que pensam que os jornalistas deixaram de ser os representantes dos cidadãos e passaram a ser representantes do sistema. Com esta ‘geringonça’, lhes damos razão.
Há sinais claros nas nossas sociedades de que as pessoas estão a deixar de confiar no sistema. Elegem ditadores e votam no impensável porque já não se sentem protegidas pelos atores do costume, nem esperam que eles os defendam. Isto inclui políticos, economistas, advogados. E inclui jornalistas. Tenho vários amigos – pessoas inteligentes, por quem tenho apreço – a queixar-se do mesmo. Que os jornais vivem na bolha distante onde também se movimentam políticos, economistas e advogados. E que esse diálogo é fechado, acontece entre uns e outros, e completamente à margem dos cidadãos. Não é que os assuntos da política, da economia e do direito não tenham importância para as pessoas. Têm, são até bastante relevantes. Mas raras vezes são tratadas pela perspetiva dos cidadãos.
Na próxima semana, os jornalistas portugueses vão reunir-se pela quarta vez em congresso na história da democracia. Há 19 anos que uma reunião destas não acontecia. E, no topo das preocupações, tem de estar esta: os jornais não podem perder os cidadãos. Não podem deixar de ser os representantes da sociedade, a voz que testemunha, denuncia e controla os poderes. É que, sem jornalismo, não há democracia. E os tempos que vivemos estão a mostrar-nos que há riscos reais para a liberdade de expressão. Que nos temos de ocupar do que realmente importa. A única forma de inverter o caminho é convocar os cidadãos para o lado da imprensa. Mas, para isso acontecer, a imprensa tem de se colocar do lado dos cidadãos.
É bastante importante que se deixe de tratar as pessoas como estúpidas. Esta ‘geringonça’ é, aliás, uma estupidez dupla. Em primeiro lugar, porque foi utilizada despudoradamente pela imprensa, apesar de estar impregnada de simbologia política. Mas volta a mostrar todo o seu esplendor de imbecilidade quando vemos a comunicação social mobilizar meios humanos, materiais e gastar tempo para fazer a cobertura disto: uma conferência de imprensa de um grupo editorial que quer anunciar os resultados de uma votação online para palavra do ano. Qual é a relevância disto, na verdade? Zero. Deste governo não tenho nada a dizer. Desta palavra, digo isto: está a matar, todos os dias, a mais bela profissão do mundo.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

A CORAGEM DE DIZER A VERDADE - Bertolt Brecht


1- A CORAGEM DE DIZER A VERDADE

É evidente que o escritor deve dizer a verdade, não a calar nem a abafar, e nada escrever contra ela. É sua obrigação evitar rebaixar-se diante dos poderosos, não enganar os fracos, naturalmente, assim como resistir à tentação do lucro que advém de enganar os fracos. Desagradar aos que tudo possuem equivale a renunciar seja o que for. Renunciar ao salário do seu trabalho equivale por vezes a não poder trabalhar, e recusar ser célebre entre os poderosos é muitas vezes recusar qualquer espécie de celebridade. Para isso precisa-se de coragem. As épocas de extrema opressão costumam ser também aquelas em que os grandes e nobres temas estão na ordem do dia. Em tais épocas, quando o espírito de sacrifício é exaltado ruidosamente, precisa o escritor de muita coragem para tratar de temas tão mesquinhos e tão baixos como a alimentação dos trabalhadores e o seu alojamento.

Quando os camponeses são cobertos de honrarias e apontados como exemplo, é corajoso o escritor que fala da maquinaria agrícola e dos pastos baratos que aliviariam o tão exaltado trabalho dos campos. Quando todos os altifalantes espalham aos quatro ventos que o ignorante vale mais do que o instruído, é preciso coragem para perguntar: vale mais porquê? Quando se fala de raças nobres e de raças inferiores, é corajoso o que pergunta se a fome, a ignorância e a guerra não produzem odiosas deformidades. É igualmente necessária coragem para se dizer a verdade a nosso próprio respeito, sobre os vencidos que somos. Muitos perseguidos perdem a faculdade de reconhecer as suas culpas. A perseguição parece-lhes uma monstruosa injustiça. Os perseguidores são maus, dado que perseguem, e eles, os perseguidos, são perseguidos por causa da sua virtude. Mas essa virtude foi esmagada, vencida, reduzida à impotência. Bem fraca virtude ela era! Má, inconsistente e pouco segura virtude, pois não é admissível aceitar a fraqueza da virtude como se aceita a humidade da chuva. É necessária coragem para dizer que os bons não foram vencidos por causa da sua virtude, mas antes por causa da sua fraqueza. A verdade deve ser mostrada na sua luta com a mentira e nunca apresentada como algo de sublime, de ambíguo e de geral; este estilo de falar dela convém justamente à mentira. Quando se afirma que alguém disse a verdade é porque houve outros, vários, muitos ou um só, que disseram outra coisa, mentiras ou generalidades, mas aquele disse a verdade, falou em algo de prático, concreto, impossível de negar, disse a única coisa que era preciso dizer.

Não se carece de muita coragem para deplorar em termos gerais a corrupção do mundo e para falar num tom ameaçador, nos sítios onde a coisa ainda é permitida, da desforra do Espírito. Muitos simulam a bravura como se os canhões estivessem apontados sobre eles; a verdade é que apenas servem de mira a binóculos de teatro. Os seus gritos atiram algumas vagas e generalizadas reivindicações, à face dum mundo onde as pessoas inofensivas são estimadas. Reclamam em termos gerais uma justiça para a qual nada contribuem, apelam pela liberdade de receber a sua parte dum espólio que sempre têm partilhado com eles. Para esses, a verdade tem de soar bem. Se nela só há aridez, números e factos, se para a encontrar forem precisos estudos e muito esforço, então essa verdade não é para eles, não possui a seus olhos nada de exaltante. Da verdade, só lhes interessa o comportamento exterior que permite clamar por ela. A sua grande desgraça é não possuírem a mínima noção dela.