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sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

A CORAGEM DE DIZER A VERDADE - Bertolt Brecht


1- A CORAGEM DE DIZER A VERDADE

É evidente que o escritor deve dizer a verdade, não a calar nem a abafar, e nada escrever contra ela. É sua obrigação evitar rebaixar-se diante dos poderosos, não enganar os fracos, naturalmente, assim como resistir à tentação do lucro que advém de enganar os fracos. Desagradar aos que tudo possuem equivale a renunciar seja o que for. Renunciar ao salário do seu trabalho equivale por vezes a não poder trabalhar, e recusar ser célebre entre os poderosos é muitas vezes recusar qualquer espécie de celebridade. Para isso precisa-se de coragem. As épocas de extrema opressão costumam ser também aquelas em que os grandes e nobres temas estão na ordem do dia. Em tais épocas, quando o espírito de sacrifício é exaltado ruidosamente, precisa o escritor de muita coragem para tratar de temas tão mesquinhos e tão baixos como a alimentação dos trabalhadores e o seu alojamento.

Quando os camponeses são cobertos de honrarias e apontados como exemplo, é corajoso o escritor que fala da maquinaria agrícola e dos pastos baratos que aliviariam o tão exaltado trabalho dos campos. Quando todos os altifalantes espalham aos quatro ventos que o ignorante vale mais do que o instruído, é preciso coragem para perguntar: vale mais porquê? Quando se fala de raças nobres e de raças inferiores, é corajoso o que pergunta se a fome, a ignorância e a guerra não produzem odiosas deformidades. É igualmente necessária coragem para se dizer a verdade a nosso próprio respeito, sobre os vencidos que somos. Muitos perseguidos perdem a faculdade de reconhecer as suas culpas. A perseguição parece-lhes uma monstruosa injustiça. Os perseguidores são maus, dado que perseguem, e eles, os perseguidos, são perseguidos por causa da sua virtude. Mas essa virtude foi esmagada, vencida, reduzida à impotência. Bem fraca virtude ela era! Má, inconsistente e pouco segura virtude, pois não é admissível aceitar a fraqueza da virtude como se aceita a humidade da chuva. É necessária coragem para dizer que os bons não foram vencidos por causa da sua virtude, mas antes por causa da sua fraqueza. A verdade deve ser mostrada na sua luta com a mentira e nunca apresentada como algo de sublime, de ambíguo e de geral; este estilo de falar dela convém justamente à mentira. Quando se afirma que alguém disse a verdade é porque houve outros, vários, muitos ou um só, que disseram outra coisa, mentiras ou generalidades, mas aquele disse a verdade, falou em algo de prático, concreto, impossível de negar, disse a única coisa que era preciso dizer.

Não se carece de muita coragem para deplorar em termos gerais a corrupção do mundo e para falar num tom ameaçador, nos sítios onde a coisa ainda é permitida, da desforra do Espírito. Muitos simulam a bravura como se os canhões estivessem apontados sobre eles; a verdade é que apenas servem de mira a binóculos de teatro. Os seus gritos atiram algumas vagas e generalizadas reivindicações, à face dum mundo onde as pessoas inofensivas são estimadas. Reclamam em termos gerais uma justiça para a qual nada contribuem, apelam pela liberdade de receber a sua parte dum espólio que sempre têm partilhado com eles. Para esses, a verdade tem de soar bem. Se nela só há aridez, números e factos, se para a encontrar forem precisos estudos e muito esforço, então essa verdade não é para eles, não possui a seus olhos nada de exaltante. Da verdade, só lhes interessa o comportamento exterior que permite clamar por ela. A sua grande desgraça é não possuírem a mínima noção dela.




quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

A informação, o conhecimento e a militância por Fernando Correia


A informação, o conhecimento e a militância

O Correio da Manhã é o mais vendido dos diários portugueses de informação geral, com mais de 100 mil exemplares por dia, número este que ultrapassa a soma das tiragens de toda a concorrência (Jornal de Notícias, Público, Diário de Notícias e i); a soma das tiragens das publicações semanais do mesmo sector (Expresso, Visão, Sábado e Sol), ronda os 150 mil exemplares por edição. Enquanto isso, os três telejornais das 20 h. dos canais generalistas (TVI, SIC e RTP) são vistos diariamente, em média, por um total de cerca de 3,5 milhões de pessoas; quanto ao género televisivo de maior audiência, as telenovelas, as três mais vistas (uma da SIC e duas da TVI) somam uma média diária de mais de 4 milhões de telespectadores.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

A Síria e o jornalismo agonizante


19 de Dezembro de 2016
Muitas aldrabices que têm sido difundidas sobre a guerra na Síria foram, de repente, postas a nu com a retomada dos sectores de Alepo controlados pelos terroristas. Consequência imediata, multiplicaram-se os comentários sobre a realidade revelada, com surpreendentes tomadas de posição por parte de insuspeitos autores. Deixo aqui uma diversificada selecção de opiniões que, pela sua natureza, se complementam. Isto não significa que a desinformação tenha desaparecido. Pelo contrário: assistimos no fim de semana a um recrudescimento da contra-informação, de que é exemplo maior o rumor de que foram capturados num bunker de Alepo conselheiros militares de várias nacionalidades.
Esse rumor corre nas redes sociais e não tem origem fiável. Continuam, também, a ser publicados nos media dominantes rumores difundidos  pelo pomposamente chamado Observatório sírio dos direitos humanos, nome de fachada de um emigrante sírio controlado pelos serviços de propaganda ocidentais. Como se pode ver na foto, o “observatório” usa bigode e é careca.
O mais interessante é que nem os grupos terroristas na Síria acreditam no sr. Rami Abdulrahman, cujas “informações” são abundantemente distribuídas nos media portugueses. Sabendo-se o que se sabe sobre o sr. Rami, fico com uma dúvida: os jornalistas que publicam essas patranhas são parvos ou pensam que os leitores são parvos?
A ligeireza e incompetência com que se escreve sobre a Síria está bem patente num título do “Público”, que qualifica a batalha de Alepo como «uma ofensiva agonizante». Não se sabe em que cérebro encaixou a ideia de que a ofensiva foi agonizante, mas há fundadas razões para supor que alguém não sabe o significado de agonizing em inglês.

João Alferes Gonçalves

domingo, 18 de dezembro de 2016

Jornalismo incómodo


A conceituada escritora e jornalista Ana Margarida de Carvalho, após 24 anos de jornalismo na ‘Visão’ “coagida a assinar um contrato de rescisão, tudo menos amigável.” (ler AQUI)

Recebi a notícia sem me surpreender, a inteligência e a verticalidade atemorizam os medíocres.

Olhei em redor e, de entre muitos, fixei-me nalguns livros: «A formação da mentalidade submissa e A intoxicação linguística, ambos de Vicente Romano», «Reflexões sobre a vaidade dos homens de Matias Aires (1750)», «A Arte de Furtar do Padre Manuel da Rocha (1650)» e porque os medíocres “quando em rebanho são perigosos” e “a mediocridade é virulenta” fixei-me no «El hombre medíocre de José Ingenieros (1915)»

E reli:

«A mediocridade é moralmente perigosa e globalmente nociva em certos momentos da história em que reina o clima da mediocridade.

Épocas há em que o equilíbrio social se inclina em seu favor. O ambiente torna-se refratário a todo o anseio de perfeição; os ideais esgotam-se e a dignidade ausenta-se; os homens acomodatícios têm a sua primavera florida. Os Estados convertem-se em mediocracias; a falta de aspirações, que mantenham um alto nível moral e cultural aumentam continuamente o lamaçal.

Embora isolados passem despercebidos, em conjunto constituem um regímen, representam um sistema especial de interesses inalteráveis. Subvertem a escala de valores morais, falseando nomes, desvirtuando conceitos; pensar é um desvario, a dignidade é irreverência, é lirismo a justiça, a sinceridade é tontice, a admiração uma imprudência, a paixão ingenuidade, a virtude uma estupidez.

Vivem da mentira, nutrem-se dela, semeiam-na, regam-na, podam-na, e colhem-na. Assim cresce um mundo de valores fictícios que favorece o horizonte dos obtusos.»


É FORÇOSO ESTAR ATENTO!