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domingo, 3 de abril de 2016

A câmara não é o olhar - Dr. Fernando Buen Abad Domínguez


 Imagem, logo existe.

A câmara não é o olhar


Clichês à parte, há momentos em que é necessário recordar que o modo como as “câmaras” mostram o mundo são decisões planificadas por alguém que, no seu modo de ver, a partir dos seus interesses e limitações, quer que vejamos. O mundo está infestado de câmaras que servem múltiplas finalidades. Câmaras de televisão, de cinema, de fotografia, de vigilância, de espionagem… câmaras nos estúdios de filmagem, em “caixas automáticas” nas avenidas, em gravatas, em lápis… câmaras para espetáculo e de controle. A realidade fragmentada pelo orifício de uma câmara.

Quase que não existe atividade individual ou coletiva em que as câmaras não estejam presentes. As câmaras consolidaram uma cultura, espécie de praga pela sua presença e pelo que “mostram”, e que sistematicamente impõem um modo de conhecimento determinado pelo “enquadramento”, o movimento, a profundidade, a nitidez ou o repouso do enfoque do operador de câmara ou do fotógrafo. É a ditadura do modo de ver, uma imposição que dirige o olhar para uma forma de ver, de pensar e decidir o que deve ser visível, como se deve ver e com que determinações de mercado, de classe ou de vigilância. O poder controlando os olhos.

O olhar próprio das câmaras nos seus “enquadramentos” é muito diferente daquele com o qual contempla a realidade. O olhar é mais amplo, mais fundo, mais colorido e mais direto. Mais tátil. É uma experiência que não necessita de intermediários nem de segmentações. Olhar é um processo do conhecimento, da sobrevivência, do próprio desenvolvimento do indivíduo e do conjunto das suas relações sociais. É muito mais que uma função fisiológica. Olha-se em amplitude e em detalhe num entrelaçar de funções complexas que interagem entre o objetivo e o subjetivo.
  
Isto implica, entre milhares de coisas, o desenvolvimento necessário de uma ética do olhar, ou seja, centrar a investigação científica no comportamento dos que escolhem e exibem os fragmentos da realidade que elegem e de que são responsáveis. Expor o que a câmara vê não é uma dádiva, não é um presente filantrópico nem dos céus. Salvo casos excecionais uma câmara não grava por si mesma nada do que mostra. Necessita que alguém a maneje, a instale e determine o campo visual que lhe convém. E por trás de cada campo visual eleito com os seus “enquadramentos” e “recolhas de imagens”, quem regista os fragmentos da realidade assume a responsabilidade não inocente e que é sempre ideológica, que tem carga ética e estética. E o problema multiplica-se como se multiplicam os milhões de câmaras que se acendem noite e dia para constituir um universo fragmentado com “enquadramentos” visuais. Merece uma referência especial, pelo menos uma menção, a manipulação descarada da recolha de imagens para que se vejam ou se invisibilizem os protestos sociais e a situação objetiva das batalhas territoriais.

O alfabeto visual dos “close up” (primeiros planos) ou as panorâmicas com todos os seus espaços e gradações é o alfabeto de um discurso da imagem que nada tem de inocente nem de inócuo. É o desenrolar de uma técnica de intervenção sobre a realidade e sobre as consciências, não só com o poder da fragmentação como também com o poder da articulação de fragmentos fazendo-os passar como um todo. E isso, com frequência, parece e confunde-se com a mentira. Nada de novo até aqui.

A fase mais perigosa, ao reduzir o olhar para o visível num enfoque, é a hipótese alienante de imaginar que se cegam os povos quando se apagam as câmaras. É a moralidade subterrânea que grita, aos quatro ventos, que só existes quando alguém te faz visível, quando te enquadra e te separa da realidade com a objetiva de uma câmara. É um exagero? É o culminar de um processo de alienação.

Também é bom explicar que não se trata de promover negações nem vinganças contra o desenvolvimento tecnológico de instrumentos para registos visuais. É impossível negar o significado da contribuição para a ciência, para as artes, para a política e para a educação (por exemplo). É impossível ignorar a contribuição que o conhecimento humano tem adquirido com o aperfeiçoamento de câmaras em locais onde ninguém ou muito poucos chegam no globo terreste ou no extra-terrestre.

O que se devia submeter a debate filosófico, ético, epistemológico e político é essa forma de uso que fez das câmaras, voluntária ou involuntariamente, uma fonte de conhecimento, uma didática da realidade, uma ponte de interação com princípios que nunca se comportaram como um quebra-cabeças, que jamais conseguirão substituir o todo  pela dialética de um conjunto de inter-relações que não podem ser satisfeitas só com registos fragmentados a que está condenada por definição uma câmara. Só a inteligência humana, por ser social, é capaz de completar a paisagem, sintetizando e universalizando a sua relação com a matéria concreta e as suas experiências transformadoras. E isso não está ao alcance de nenhuma câmara. E ainda bem.

Dr. Fernando Buen Abad Domínguez
Universidad de la Filosofía

Jornalismo de verdade

 O Correio da Manha apanhou todos de surpresa: "Esses chupistas dos funcionários públicos" vão ter um aumento salarial de 20%!! É um escândalo...
Afinal não. Apenas lhes vão ser devolvidos 20% da sobretaxa entre de 3,5% e 10% nos ordenados de 1500 euros... E 20% de 3,5% são 0,7%... O que num salário de 1500 euros dá... 10,5 euros!
Mas para quê ser rigoroso? Já deu para parir mais um título...

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Eles mentem todos os dias!


Nunca mentimos! Podemos enlear-nos nas teias da ficção, encarnar personagens históricas, ou dizermos que navegamos em águas turvas quando, na verdade, não somos armadas nem cardumes, mas nunca mentimos!

Hoje é dia das pessoas se divertirem com mentiras, irreprováveis, porque é dia 1 de abril. E a brincadeira chega até aos noticiários e às manchetes dos jornais!...

Terá graça nos indivíduos de quem nunca se espera uma mentira mas é paradoxal nos média que com arte e engenho nos mentem todos os dias!

E, dito isto, num tempo em que há dias de tudo e para tudo, em que o "dia de" está banalizado, não propomos mais um, mas uma troca, que o dia 1 de abril passe a ser o Dia da Verdade, o dia em que ninguém, nenhum jornal ou televisão mente!

quinta-feira, 31 de março de 2016

O GOLPE E OS MÍDIA



Lula diz que impeachment sem motivo é golpe e que mídia cria clima de ódio no país

Enquanto não necessitarem de armas de fogo os mídia cumprem os reais objetivos dos neofascistas.

HOJE O POVO SAI À RUA

segunda-feira, 21 de março de 2016

JORNALISMO DE ESGOTO ou de CLASSE?



A Globo tratou as duas manifestações de forma diferente.
Por Jean Wyllys

A cobertura jornalística das manifestações do último domingo e da sexta-feira em boa parte dos veículos de comunicação, especialmente a rede Globo e a Globo News, confundiu gravemente o jornalismo com a propaganda. Vejamos alguns exemplos disso.
Nas manifestações do domingo (a favor do impeachment), houve transmissão ao vivo por esses canais de TV durante o dia inteiro, quase sem interrupções. Nas manifestações da sexta-feira (contra o impeachment), o foco estava nos estúdios e nas falas de âncoras e repórteres, com flashes e breves transmissões desde os locais das manifestações disputando o tempo com outras notícias.
O enquadramento das imagens, no domingo, era o mais favorável e permitia ver que tinha muita gente, enquanto na sexta-feira, a câmera estava sempre muito perto ou muito longe, produzindo o efeito oposto. Em algumas cidades, inclusive, as imagens mostraram o momento em que as pessoas “estão começando a chegar” e, tempo depois, o momento em que “a manifestação já acabou”, omitindo o momento mais importante: quando a manifestação estava acontecendo. No domingo, esse foi o momento privilegiado.
Nas manifestações do domingo (“atos espontâneos da cidadania”), os manifestantes eram protagonistas, ou seja, tinham direito a falar, a dizer por que estavam ali. Nas manifestações da sexta-feira (“manifestações governistas”), essa narrativa era assumida pelo cronista. E alguns fatos relevantes que faziam parte da notícia não foram ditos: diferentemente do domingo, na sexta-feira não houve catracas liberadas no metrô de São Paulo; pelo contrário, a “falta de troco” demorava as pessoas que queriam viajar.
Contudo, o momento mais vergonhoso foi quando começou a fala do ex-presidente Lula. “Estamos com problemas no áudio, vamos pedir ao nosso repórter que conte o que está acontecendo”. Como assim? Você pode amar ou detestar o Lula, pode acreditar ou não no que ele diz, ou pode (como eu espero que você faça!) fazer uma leitura crítica, mas para isso você, cidadão, cidadã, tem direito a ouvi-lo! Como é possível que a fala dele não tenha sido transmitida ao vivo? Qual é o critério de “notícia”? (Vale aqui fazer uma ressalva: a Band News transmitiu o discurso; pelo menos a audiência desse canal teve seu direito a se informar respeitado).
Passamos dois dias inteiros assistindo sem parar pela televisão, em repetição continuada como no velho cinema, às conversas privadas do ex-presidente (uma espécie de Big Brother involuntário do qual ele não sabia que estava participando) e agora não temos direito, como audiência, público e cidadania, a ouvir o que ele diz num comício com cerca de cem mil pessoas na avenida Paulista? Não é notícia?
Qual é o medo?
Deixem as pessoas assistirem tudo e tirarem suas conclusões sozinhas! Até porque, diferentemente do que a narrativa da oposição de direita, dos principais veículos de comunicação e também do governismo pretende instalar, não há apenas dois lados nessa história. A realidade é muito mais complexa e não podemos reduzir a atual conjuntura a uma opção entre adesão ao governo e adesão à direita tradicional. Tem muita gente que, como eu, milita na oposição de esquerda ao governo Dilma mas é contra o impeachment porque, até o momento, não há provas concretas que justifiquem esse processo que está sendo conduzido de forma ilegítima por um presidente da Câmara investigado pelo STF por corrupção e lavagem de dinheiro, e porque é a favor da democracia!
Muitas dessas pessoas foram ontem às ruas e tanto a mídia quanto muitos governistas erram se acreditam que todos os manifestantes eram simpatizantes do governo e do PT. Essas vozes não são ouvidas nos telejornais, mas existem.
Eu não vejo problema no fato de que cada veículo de comunicação tenha uma posição política. Na maioria dos países, tem jornais de esquerda e de direita (no Brasil, infelizmente, não há esse pluralismo), mas o que não pode é a narrativa enviesada não deixar lugar para a notícia. O jornalismo precisa informar e, depois, se quiser, pode dar sua opinião, deixando claro que é opinião. É a diferença entre a notícia, a coluna e o editorial.
A minha pergunta é: cadê a notícia? Cadê o jornalismo?

O texto acima foi publicado no facebook.

domingo, 20 de março de 2016

A "GLOBO" E OS GOLPISTAS




“MANIFES NO BRASIL PALAVRAS DE ORDEM”
A grande mídia, especialmente a rede Globo, foi rechaçada aos motes de:
“O Povo não é bobo, abaixo a rede Globo”
e
“A Verdade é dura, a rede Globo apoiou a ditadura”
e acusada de alardear a falsa análise de que a deposição da presidenta Dilma, via um golpe de Estado, reconduziria o país à normalidade e à retomada do crescimento económico.