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quarta-feira, 16 de março de 2016

“A Internet pode tomar o lugar do mau jornalismo” - Umberto Eco

“A Internet é perigosa para o ignorante.”
 “O livro ainda é o meio ideal para aprender. Não precisa de eletricidade, e você pode riscar à vontade. (…) Acho que os tablets e e-books servem como auxiliares de leitura. São mais para entretenimento que para estudo. Gosto de riscar, anotar e interferir nas páginas de um livro. Isso ainda não é possível fazer num tablet.”

“A Internet não seleciona a informação. Há de tudo por lá. A Wikipédia presta um mau serviço ao internauta. Outro dia publicaram fofocas a meu respeito, e tive de intervir e corrigir os erros e absurdos. A Internet ainda é um mundo selvagem e perigoso. Tudo surge lá sem hierarquia. A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. O excesso de informação provoca a amnésia. Informação em demasia faz mal. Quando não lembramos o que aprendemos, ficamos parecidos com os animais. Conhecer é cortar, é selecionar. Vamos tomar como exemplo o ditador e líder romano Júlio César e como os historiadores antigos trataram dele. Todos dizem que foi importante porque alterou a história. Os cronistas romanos só citam a sua mulher, Calpúrnia, porque esteve ao lado de César. Nada se sabe sobre a viuvez de Calpúrnia. Se costurou, dedicou-se à educação ou seja lá o que for. Hoje, na Internet, Júlio César e Calpúrnia têm a mesma importância. Ora, isso não é conhecimento.”
“Se você sabe que sites e bancos de dados são confiáveis, você tem acesso ao conhecimento. Mas veja bem: você e eu somos ricos de conhecimento. Podemos aproveitar melhor a Internet do que aquele pobre senhor que está comprando salame na feira aí em frente. Nesse sentido, a televisão era útil para o ignorante, porque selecionava a informação de que ele poderia precisar, ainda que informação idiota. A Internet é perigosa para o ignorante porque não filtra nada para ele. Ela só é boa para quem já conhece – e sabe onde está o conhecimento. A longo prazo, o resultado pedagógico será dramático. Veremos multidões de ignorantes usando a Internet para as mais variadas inutilidades: jogos, conversas online e busca de notícias irrelevantes.”
“[Há uma solução para o excesso de informação?] Seria preciso criar uma teoria da filtragem. Uma disciplina prática, baseada na experimentação quotidiana com a Internet. Fica aí uma sugestão para as universidades: elaborar uma teoria e uma ferramenta de filtragem que funcionem para o bem do conhecimento. Conhecer é filtrar.”
“As redes sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um vencedor do Prémio Nobel.”
“O problema da Internet é que produz muito ruído, pois há muita gente a falar ao mesmo tempo. Faz-me lembrar quando na ópera italiana é necessário imitar o ruído da multidão e o que todos pronunciam é a palavra ‘rabarbaro’. Porque imita esse som quando todos repetem ‘rabarbaro rabarbaro rabarbaro’, e o ruído crescente da informação faz correr o risco de se fazer ‘rabarbaro’ sobre os acontecimentos no mundo.”
“Populismo mediático significa apelar diretamente à população através dos meios de comunicação. Um político que domina bem o uso dos meios de comunicação pode moldar os temas políticos fora do parlamento e, até, eliminar a mediação do parlamento.”

Fontes: “Época” (Brasil), “Diário de Notícias” (Portugal) e “The New York Times” (Estados Unidos)

terça-feira, 15 de março de 2016

Pressões! Lóbis! Manipulação! Tudo sobre os media atuais.



Pressões! Lóbis! Manipulação! Tudo sobre os media atuais.
Desde sempre, os homens de poder controlaram a informação. Durante muito tempo, censuraram as verdades que punham em perigo o seu domínio. Antigamente amordaçava-se o mensageiro. Um método que viria a tornar-se contraprodutivo. Num universo mediático de proliferação descontrolada, a censura brutal chama a atenção e multiplica o impacte da informação que se quer esconder. O alarido mediático tornou-se o melhor aliado dos novos censores. Profissionais aguerridos têm por missão fazer com que o cidadão não entenda aquilo que ouve… Já não se censura, «gere-se a perceção» do público. Nasce uma verdadeira censura com os seus estrategas: os spin doctors, como lhes chamam nos países anglo-saxões. A sua razão social: vender-nos a verdade do mais forte. As técnicas de manipulação de informação empregues quotidianamente sob os nossos olhos são múltiplas e extraordinariamente inteligentes. Aplicam-se a toda a cadeia da informação. Primeiro, há que esconder a verdade. Se a verdade aparecer, há que fazer pressão sobre os mediadores capazes de a substituir, ameaçá-los, aterrorizá-los, seduzi-los, comprá-los. Se a verdade for difundida pelos media, há que controlar o impacte sobre a opinião e tudo fazer para que não seja ouvida e, sobretudo, para que não crie uma emoção popular. Através de exemplos concretos, vividos, que narra com a inspiração de um contador talentoso, Paul Moreira pinta um retrato impressionante deste universo da desinformação. Quer se trate de militares (americanos no Iraque ou franceses na Costa do Marfim), de financeiros ou industriais (a indústria farmacêutica é uma mina de ouro nesse domínio) ou de políticos (os staffs de George Bush e Nicolas Sarkozy são especialistas temíveis), todos empregam os mesmos métodos fundados sobre uma convicção simples: o cidadão, como o consumidor, é manipulável se se souber carregar nas teclas certas.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Dizem que a mensagem não passa



Dizem que o discurso está ultrapassado, que não tem novidade e mesmo quando é dito por alguém mais jovem, está contaminado por velhas ideias. Dizem que o mundo mudou e que só os comunistas é que ainda não perceberam o quanto mudou. Dizem que o PCP é sempre do contra, que só sabe dizer mal e que nada de construtivo tem para propor ao País. Dizem que quanto mais miséria e exploração melhor, pois é da miséria que vive o Partido. Dizem que dizemos sempre a mesma coisa, que é cassete! E dizem-no dez, cem, mil vezes. Nos jornais que lhes dão espaço, nas rádios que lhes amplificam os comentários, nas televisões onde se sentam todos os dias e onde debitam as suas sentenças, incluindo a de dizer que a mensagem do PCP... não passa! 

A mensagem de Portas e de Passos passa. A mensagem de Marcelo e de Marques Mendes passa. A mensagem do PS e do BE passa. Só a mensagem do PCP é que não passa. Que azar! Melhor dito, que incompetência!!! Nós que andamos nisto há quase 95 anos, nós que nos fartamos de ter opinião sobre quase tudo, nós que temos análises, propostas, projecto, já devíamos ter aprendido alguma coisa com a vida. Falta-nos o jeito, a técnica, o sentido de oportunidade, a agilidade, a inteligência, a dicção, a presença, a telegenia que sobra seguramente em todos os outros. Mas não ensinam isso no Partido?? Perguntam alguns. E muitos acreditam que assim é. Falta-nos também essa independência, esse livre espírito de pensamento que abunda noutras paragens e que por aqui escasseia e que só se adquire, dizem, quando se deixa de ser comunista... 

Entre a discriminação do Partido e a promoção de outros, passando pelo sistemático preconceito que invade e condiciona muitas das redacções, até às ordens directas dos centros de decisão em operações dirigidas contra o PCP e das quais temos exemplos bem recentes como foram as eleições para a Presidência da República, a voz do Partido, a mensagem do Partido, é absolutamente intolerável para os senhores do dinheiro. Impossibilitados de ir onde a PIDE e a censura chegaram, utilizam a propriedade dos órgãos de informação como se de um exército se tratasse. Porque temem o mensageiro? Também. Mas temem sobretudo a mensagem, sobretudo se for entendida e transformada em acção transformadora por quem a sente e ouve. 

Vasco Cardoso - Avante




sábado, 20 de fevereiro de 2016

Temos todos as mãos sujas de sangue

O jornalista, Carlos Santos Pereira, garante que, em cenários de guerra, os media são manipulados por agências de comunicação e pressionados a veicular informação falsa.
Diz que a Alemanha está a exercer a mesma política que Hitler e que as medidas de austeridade aplicadas a Portugal e à Grécia não têm a ver com racionalidade, mas com questões ideológicas.

Qual foi a guerra que mais o marcou?
Balcãs, sem dúvida nenhuma. Kraina, Bósnia, Kosovo representaram um ponto de viragem na história europeia, no quadro geo-estratégico e das relações internacionais, nas suas diversas componentes: políticas, diplomáticas, institucionais, legais. No caso do Kosovo, ao nível das estratégias de comunicação, operações militares, práticas políticas e diplomáticas e questões jurídicas que este conflito levantou. O conflito dos Balcãs abriu a era em que estamos agora. Na perspectiva jornalística, teve uma importância crucial. Vivi este conflito, particularmente a questão da Kraina, muito por dentro, e não apenas como observador. Deixou-me marcas muito vivas.
Quanto tempo acompanhou esse conflito?
Um ano antes das primeiras hostilidades, peguei numa mota e corri a Jugoslávia de ponta a ponta. Entrevistei montes de gente. Quando cheguei ao fim, disse que era inevitável haver uma guerra. E escrevi isso numa reportagem para o Expresso. O Vicente [Jorge Silva] começou aos gritos comigo porque estava a anunciar uma guerra. Infelizmente, um ano depois, rebentou. Acompanhei-a até ao momento em que a NATO entrou no Kosovo. Depois, fiz meia dúzia de reportagens com a tropa portuguesa. As memórias ainda me doem tanto que não quero voltar àquelas paragens.

A que se refere em concreto?
À Kraina. Foi um genocídio, no sentido técnico do termo, feito com a cumplicidade militar e política dos EUA e da Europa, que estiveram envolvidíssimos naquela operação. Temos todos as mãos sujas de sangue. Ainda me lembro de um oficial croata me dizer, pouco antes do ataque à Kraina, que as ordens eram muito simples. Ninguém podia dar um único tiro sem ser comandado pelos EUA. Foram os EUA que montaram a operação toda. A capacidade de mentir, de manipular, ultrapassou tudo o que era capaz de imaginar.

Foi nessa ocasião que teve divergências com alguns editores que queriam que divulgasse a informação veiculada pelas agências e não a que tinha recolhido?
Sim, tive choques sistemáticos com diversos editores. Mas não fui o único. Martin Bell, um famoso repórter, dizia que tinha mais problemas com os editores do que com os inimigos.

Esses editores duvidavam da informação que tinha investigado?
Não era duvidar. Os editores lidam com uma série de condicionantes: o ambiente informativo, o que a concorrência diz, as expectativas do próprio público. Têm uma perspectiva da informação completamente diferente da do repórter no terreno. Normalmente, somos atirados para um cenário qualquer, em relação ao qual se criou uma visão mais ou menos consensual e, quando chegamos lá, deparamo-nos com realidades bem mais complexas. E o choque é inevitável. Queríamos denunciar e dar uma visão das coisas que não jogava com a linha da NATO e dos EUA. E como a questão da informação era ultra- sensível naquele conflito, havia pressões enormes.

Alguma vez foi censurado ou obrigado a fazer auto-censura?
Nunca deixei. Agora, porem-me a andar ou tentarem evitar que falasse, sim. O caso da Ucrânia é um bom exemplo. Em toda a parte, estava proibido de contar o que vi. Só publiquei a história na Revista de Ciências Militares. Ao contrário do que seria de esperar, a multiplicação dos canais de comunicação e de informação e o acirrar da concorrência tem o efeito de afunilamento. Nunca a informação foi tão uniforme, tão igual. A resposta à concorrência não é tentar fazer diferente do vizinho. É garantir que eu não deixei de dar aquilo que ele também deu.

passos iniciais de mais uma vergonhosa campanha de manipulação


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 Esta  foi a notícia:

Há acordo União Europeia-Reino Unido
Ontem 22:16 Económico com Lusa

Anúncio feito pela presidente da Lituânia através da conta do Twitter e já confirmado pelo próprio Donald Tusk, líder do Conselho Europeu.


...para ingleses (e portugueses e "europeus") verem!

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Palavras, vozes, cabeças - Correia da Fonseca



Palavras, vozes, cabeças

Foi em «O último apaga a luz», título curioso de um programa de diálogo e debate da «RTP3», a antiga «RTP Informação» depois de recentemente metamorfoseada talvez com resultados positivos, talvez não, um dia destes se saberá. Falava-se (também mas não só) da recente eleição presidencial, dos seus resultados, dos factores que os terão explicado no todo ou em parte, e a certo passo um dos intervenientes no programa asseverou que «não é a comunicação social que governa o País». Ouvida assim, de passagem e no meio de muito mais conversa, a afirmação parece de relevância escassa e de fundamento óbvio: é sabido que quem governa o País é o Governo, como aliás a própria palavra logo torna evidente, pelo que não pareceria adequado perder mais tempo com a questão, se é que de questão se chega a tratar. Contudo, e ao contrário do que parece, o ponto merece reflexão e, porventura mais que isso, correcção. É certo que a comunicação social não nomeia os cidadãos a quem será confiada a governação, está aliás convenientemente distante dessa nomeação directa, mas o facto é que no terreno em que ela actua há-de florir, algum tempo depois e após adequada maturação, a escolha que sob a forma de voto livre e presumivelmente esclarecido designará quem vai mandar no País. E esse terreno onde foi lançada a sementeira é nem mais nem menos que as cabecinhas dos cidadãos.
Onde se fala de Goebbels
Não há muitos anos, uma estação de rádio lançou um «slogan» autopublicitário que, de memória mas com fidelidade ao essencial, se citará como segue: «(esta é) a estação que lhe diz o que você vai pensar!». Era, como se vê, um prodígio de franqueza, mas não era nada tolo: assumia com perspicácia, na parte que teria a ver com aquela estação, um diagnóstico de âmbito mais geral acerca da reacção de causa e efeito entre o «discurso» da comunicação social e os comportamentos dos cidadãos nas mais diversas áreas, desde a escolha do próximo carro a adquirir até ao sentido de voto nas próximas eleições. E é claro que neste quadro se incluem o governo a eleger e a política que por ele será praticada, pelo menos se o executivo eleito for honestamente fiel às promessas feitas em período eleitoral, o que nem sempre acontece, como bem sabemos. É também razoavelmente claro que não basta que a comunicação social tenha «voz»: é preciso que a use com clareza e com a insistência necessária. Quando, há um pouco mais de setenta anos, um sujeito de apelido Goebbels disse, por estas ou equivalentes palavras, que uma mentira repetida mil vezes é mais forte que uma verdade, limitou-se a enunciar uma regra fundamentalíssima da comunicação social quando transformada em manipulação social. Isto é: seguindo embora um outro itinerário verbal, disse que a comunicação social serve, sim, para governar um país. Ao contrário do sustentado pelo participante que na RTP3 e a avaliar pelo título do programa estará ali disponível para «apagar a luz». Serve para governar, embora não em regime de exclusividade, isto é, não sendo o único instrumento a usar, que isto de governanças é matéria complexa. Porém, a questão não acaba aqui: quem fala em governar poderá falar também em projectos diferentes para o cardápio de acções políticas, para mudanças de fundo nas estruturas sócio-económicas, para outros cenários de futuro. Também para isso, e decerto para ainda muito mais, a comunicação social é de primeiríssima importância, o que, já se vê, tem de estar no primeiro plano da nossa permanente atenção. O que era sabido por Joseph Goebbels quanto às mentiras não pode ser ignorado por nós quanto às verdades que, por obstruções diversas e por vezes terríveis, temos dificuldade em fazer passar. As verdades, temos de repeti-las mil vezes. E bem, isto é, eficazmente. Para encurtarmos o trajecto entre o presente e o futuro.

Correia da Fonseca