.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Dizem que a mensagem não passa



Dizem que o discurso está ultrapassado, que não tem novidade e mesmo quando é dito por alguém mais jovem, está contaminado por velhas ideias. Dizem que o mundo mudou e que só os comunistas é que ainda não perceberam o quanto mudou. Dizem que o PCP é sempre do contra, que só sabe dizer mal e que nada de construtivo tem para propor ao País. Dizem que quanto mais miséria e exploração melhor, pois é da miséria que vive o Partido. Dizem que dizemos sempre a mesma coisa, que é cassete! E dizem-no dez, cem, mil vezes. Nos jornais que lhes dão espaço, nas rádios que lhes amplificam os comentários, nas televisões onde se sentam todos os dias e onde debitam as suas sentenças, incluindo a de dizer que a mensagem do PCP... não passa! 

A mensagem de Portas e de Passos passa. A mensagem de Marcelo e de Marques Mendes passa. A mensagem do PS e do BE passa. Só a mensagem do PCP é que não passa. Que azar! Melhor dito, que incompetência!!! Nós que andamos nisto há quase 95 anos, nós que nos fartamos de ter opinião sobre quase tudo, nós que temos análises, propostas, projecto, já devíamos ter aprendido alguma coisa com a vida. Falta-nos o jeito, a técnica, o sentido de oportunidade, a agilidade, a inteligência, a dicção, a presença, a telegenia que sobra seguramente em todos os outros. Mas não ensinam isso no Partido?? Perguntam alguns. E muitos acreditam que assim é. Falta-nos também essa independência, esse livre espírito de pensamento que abunda noutras paragens e que por aqui escasseia e que só se adquire, dizem, quando se deixa de ser comunista... 

Entre a discriminação do Partido e a promoção de outros, passando pelo sistemático preconceito que invade e condiciona muitas das redacções, até às ordens directas dos centros de decisão em operações dirigidas contra o PCP e das quais temos exemplos bem recentes como foram as eleições para a Presidência da República, a voz do Partido, a mensagem do Partido, é absolutamente intolerável para os senhores do dinheiro. Impossibilitados de ir onde a PIDE e a censura chegaram, utilizam a propriedade dos órgãos de informação como se de um exército se tratasse. Porque temem o mensageiro? Também. Mas temem sobretudo a mensagem, sobretudo se for entendida e transformada em acção transformadora por quem a sente e ouve. 

Vasco Cardoso - Avante




sábado, 20 de fevereiro de 2016

Temos todos as mãos sujas de sangue

O jornalista, Carlos Santos Pereira, garante que, em cenários de guerra, os media são manipulados por agências de comunicação e pressionados a veicular informação falsa.
Diz que a Alemanha está a exercer a mesma política que Hitler e que as medidas de austeridade aplicadas a Portugal e à Grécia não têm a ver com racionalidade, mas com questões ideológicas.

Qual foi a guerra que mais o marcou?
Balcãs, sem dúvida nenhuma. Kraina, Bósnia, Kosovo representaram um ponto de viragem na história europeia, no quadro geo-estratégico e das relações internacionais, nas suas diversas componentes: políticas, diplomáticas, institucionais, legais. No caso do Kosovo, ao nível das estratégias de comunicação, operações militares, práticas políticas e diplomáticas e questões jurídicas que este conflito levantou. O conflito dos Balcãs abriu a era em que estamos agora. Na perspectiva jornalística, teve uma importância crucial. Vivi este conflito, particularmente a questão da Kraina, muito por dentro, e não apenas como observador. Deixou-me marcas muito vivas.
Quanto tempo acompanhou esse conflito?
Um ano antes das primeiras hostilidades, peguei numa mota e corri a Jugoslávia de ponta a ponta. Entrevistei montes de gente. Quando cheguei ao fim, disse que era inevitável haver uma guerra. E escrevi isso numa reportagem para o Expresso. O Vicente [Jorge Silva] começou aos gritos comigo porque estava a anunciar uma guerra. Infelizmente, um ano depois, rebentou. Acompanhei-a até ao momento em que a NATO entrou no Kosovo. Depois, fiz meia dúzia de reportagens com a tropa portuguesa. As memórias ainda me doem tanto que não quero voltar àquelas paragens.

A que se refere em concreto?
À Kraina. Foi um genocídio, no sentido técnico do termo, feito com a cumplicidade militar e política dos EUA e da Europa, que estiveram envolvidíssimos naquela operação. Temos todos as mãos sujas de sangue. Ainda me lembro de um oficial croata me dizer, pouco antes do ataque à Kraina, que as ordens eram muito simples. Ninguém podia dar um único tiro sem ser comandado pelos EUA. Foram os EUA que montaram a operação toda. A capacidade de mentir, de manipular, ultrapassou tudo o que era capaz de imaginar.

Foi nessa ocasião que teve divergências com alguns editores que queriam que divulgasse a informação veiculada pelas agências e não a que tinha recolhido?
Sim, tive choques sistemáticos com diversos editores. Mas não fui o único. Martin Bell, um famoso repórter, dizia que tinha mais problemas com os editores do que com os inimigos.

Esses editores duvidavam da informação que tinha investigado?
Não era duvidar. Os editores lidam com uma série de condicionantes: o ambiente informativo, o que a concorrência diz, as expectativas do próprio público. Têm uma perspectiva da informação completamente diferente da do repórter no terreno. Normalmente, somos atirados para um cenário qualquer, em relação ao qual se criou uma visão mais ou menos consensual e, quando chegamos lá, deparamo-nos com realidades bem mais complexas. E o choque é inevitável. Queríamos denunciar e dar uma visão das coisas que não jogava com a linha da NATO e dos EUA. E como a questão da informação era ultra- sensível naquele conflito, havia pressões enormes.

Alguma vez foi censurado ou obrigado a fazer auto-censura?
Nunca deixei. Agora, porem-me a andar ou tentarem evitar que falasse, sim. O caso da Ucrânia é um bom exemplo. Em toda a parte, estava proibido de contar o que vi. Só publiquei a história na Revista de Ciências Militares. Ao contrário do que seria de esperar, a multiplicação dos canais de comunicação e de informação e o acirrar da concorrência tem o efeito de afunilamento. Nunca a informação foi tão uniforme, tão igual. A resposta à concorrência não é tentar fazer diferente do vizinho. É garantir que eu não deixei de dar aquilo que ele também deu.

passos iniciais de mais uma vergonhosa campanha de manipulação


1

 Esta  foi a notícia:

Há acordo União Europeia-Reino Unido
Ontem 22:16 Económico com Lusa

Anúncio feito pela presidente da Lituânia através da conta do Twitter e já confirmado pelo próprio Donald Tusk, líder do Conselho Europeu.


...para ingleses (e portugueses e "europeus") verem!

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Palavras, vozes, cabeças - Correia da Fonseca



Palavras, vozes, cabeças

Foi em «O último apaga a luz», título curioso de um programa de diálogo e debate da «RTP3», a antiga «RTP Informação» depois de recentemente metamorfoseada talvez com resultados positivos, talvez não, um dia destes se saberá. Falava-se (também mas não só) da recente eleição presidencial, dos seus resultados, dos factores que os terão explicado no todo ou em parte, e a certo passo um dos intervenientes no programa asseverou que «não é a comunicação social que governa o País». Ouvida assim, de passagem e no meio de muito mais conversa, a afirmação parece de relevância escassa e de fundamento óbvio: é sabido que quem governa o País é o Governo, como aliás a própria palavra logo torna evidente, pelo que não pareceria adequado perder mais tempo com a questão, se é que de questão se chega a tratar. Contudo, e ao contrário do que parece, o ponto merece reflexão e, porventura mais que isso, correcção. É certo que a comunicação social não nomeia os cidadãos a quem será confiada a governação, está aliás convenientemente distante dessa nomeação directa, mas o facto é que no terreno em que ela actua há-de florir, algum tempo depois e após adequada maturação, a escolha que sob a forma de voto livre e presumivelmente esclarecido designará quem vai mandar no País. E esse terreno onde foi lançada a sementeira é nem mais nem menos que as cabecinhas dos cidadãos.
Onde se fala de Goebbels
Não há muitos anos, uma estação de rádio lançou um «slogan» autopublicitário que, de memória mas com fidelidade ao essencial, se citará como segue: «(esta é) a estação que lhe diz o que você vai pensar!». Era, como se vê, um prodígio de franqueza, mas não era nada tolo: assumia com perspicácia, na parte que teria a ver com aquela estação, um diagnóstico de âmbito mais geral acerca da reacção de causa e efeito entre o «discurso» da comunicação social e os comportamentos dos cidadãos nas mais diversas áreas, desde a escolha do próximo carro a adquirir até ao sentido de voto nas próximas eleições. E é claro que neste quadro se incluem o governo a eleger e a política que por ele será praticada, pelo menos se o executivo eleito for honestamente fiel às promessas feitas em período eleitoral, o que nem sempre acontece, como bem sabemos. É também razoavelmente claro que não basta que a comunicação social tenha «voz»: é preciso que a use com clareza e com a insistência necessária. Quando, há um pouco mais de setenta anos, um sujeito de apelido Goebbels disse, por estas ou equivalentes palavras, que uma mentira repetida mil vezes é mais forte que uma verdade, limitou-se a enunciar uma regra fundamentalíssima da comunicação social quando transformada em manipulação social. Isto é: seguindo embora um outro itinerário verbal, disse que a comunicação social serve, sim, para governar um país. Ao contrário do sustentado pelo participante que na RTP3 e a avaliar pelo título do programa estará ali disponível para «apagar a luz». Serve para governar, embora não em regime de exclusividade, isto é, não sendo o único instrumento a usar, que isto de governanças é matéria complexa. Porém, a questão não acaba aqui: quem fala em governar poderá falar também em projectos diferentes para o cardápio de acções políticas, para mudanças de fundo nas estruturas sócio-económicas, para outros cenários de futuro. Também para isso, e decerto para ainda muito mais, a comunicação social é de primeiríssima importância, o que, já se vê, tem de estar no primeiro plano da nossa permanente atenção. O que era sabido por Joseph Goebbels quanto às mentiras não pode ser ignorado por nós quanto às verdades que, por obstruções diversas e por vezes terríveis, temos dificuldade em fazer passar. As verdades, temos de repeti-las mil vezes. E bem, isto é, eficazmente. Para encurtarmos o trajecto entre o presente e o futuro.

Correia da Fonseca

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Dos problemas laborais ao ataque à democracia

 - Edição Nº2201  -  4-2-2016

Jornalistas e jornalismo
Dos problemas laborais ao ataque à democracia
A situação laboral dos jornalistas portugueses está a atravessar um dos mais graves períodos dos últimos anos. As salas de redacção cada vez têm menos profissionais e a maior parte dos que ficam vêem as condições de trabalho piorar. Mas a fragilização dos jornalistas, e consequentemente do jornalismo, não os afecta apenas a eles mas também a todos os portugueses, assim privados – como se não bastassem razões de natureza mais profunda, de natureza política, económica e ideológica – de uma informação independente, contextualizada, rigorosa e pluralista. O que está em causa não é apenas um grupo profissional, é também a qualidade da democracia.



Só nos tempos mais recentes, saíram da Global Media News (ex-Controlinvest), proprietária, nomeadamente, do Diário de Notícias, Jornal de Notícias, O Jogo e TSF, cerca de 70 profissionais; do Sol e do i mais de 60, da Agência Lusa 22, do Público 28, da Impala 29 (revistas Maria, TV 7 Dias, Nova Gente e outras) e da Cofina 8 (Correio da Manhã, RecordJornal de Negócios, CMTV). Na RTP decorre um processo de saídas voluntárias.
O número de activos desceu, entre 2007 e 2014, de 6839 para 5621, o que significa o «desaparecimento» de 1218 jornalistas em sete anos, quase 20 por cento. A maior parte devido a despedimento, ainda que alguns sob a forma de «rescisão amigável», outros porque resolveram mudar de vida…
A precariedade alastra, assumindo várias máscaras, nomeadamente: contratos a prazo ou de prestação de serviços, falsos recibos verdes, utilização sucessiva de estagiários, pagamentos não superiores ao salário mínimo, utilização de estagiários curriculares para a ocupação de postos de trabalho.
Há poucas semanas, na cerimónia de entrega dos Prémios Gazeta, o galardoado com o prémio Revelação (destinado a jovens com título profissional com menos de 30 anos de idade e não mais de dois anos de profissão) afirmou: «A precariedade assusta, mete medo. O desemprego ganha contornos de fobia. Estarei a ser dramático? Vim hoje aqui receber um prémio cujo último vencedor que conseguiu ficar a trabalhar a tempo inteiro, em Portugal, foi o de 2008».
Mais de 43 por cento dos jornalistas contratados, a grande maioria com licenciatura na área, auferem menos de 1000 euros de salário mensal, incluindo muitos com mais de uma década de profissão. No Diário Económico, onde os salários têm sido pagos com atraso, as receitas estiveram várias semanas penhoradas pelo Fisco.
Não deixam de se acentuar as pressões, limitações, intimidações e mesmo proibições da actividade nas empresas das estruturas representativas dos trabalhadores, nomeadamente Conselhos de Redacção, delegados sindicais, comissões de trabalhadores.
Os interesses de quem pode e manda
Estes dados mostram até que ponto o profissionalismo jornalístico está ameaçado na sua identidade e na sua essência. O emagrecimento e a fragilização das redacções levam necessariamente à diminuição de condições, objectivas e subjectivas, para a existência de uma prática jornalística que cumpra a sua função social, enquanto elemento indispensável à informação e formação das pessoas e à própria qualidade da vida democrática.
Mas não são apenas os estritos constrangimentos de natureza laboral que têm de ser considerados. No quadro da dupla lógica que nas sociedades capitalistas enforma – e deforma – a actividade jornalística, a lógica comercial, gerada pelos imperativos económicos a que os media estão subordinados, e que transparece mais ou menos ostensivamente nos «critérios jornalísticos» de selecção e de apresentação da informação, opõe-se e impõe-se frontalmente à lógica informativa, reflectida nos estatutos profissionais, nas normas deontológicas e nos livros de estilo, e alimentada pela própria consciência cívica dos jornalistas enquanto cidadãos, pelo menos daqueles que têm clara noção da especial responsabilidade social da profissão.
Por um lado, torna-se flagrante a submissão da actividade jornalística às leis do mercado, com reflexos visíveis, nomeadamente, na importância dominante adquirida pela conquista das audiências, não na saudável perspectiva de ser útil ao público, mas enquanto sinónimo do almejado aumento das receitas publicitárias. Sabe-se em que medida esta mera sujeição das estratégias informativas às estratégias comerciais leva ao sensacionalismo, à superficialidade, à informação-espectáculo e à manipulação.
Por outro lado, acentua-se a conjugação destes objectivos com um outro: a utilização dos media como instrumento de influência política e ideológica ao serviço dos interesses não só do grande capital, mas também das estratégias globais do imperialismo, conforme é visível nos temas, nas fontes e nas abordagens do noticiário internacional.
Efeitos perversos
Em toda esta situação, os grupos económicos proprietários da quase totalidade dos media de maior influência – na imprensa, na rádio, na televisão e no digital – assumem, obviamente, um papel determinante. A mercantilização da informação que lhes é inerente traz consigo efeitos perversos que têm directamente a ver com o trabalho jornalístico.
As operações de despejo de jornalistas das salas de redacção são «compensadas» pela crescente presença ou influência – melhor dito: interferência – na produção da informação de novo tipo de intervenientes, pertencentes ou não aos quadros das próprias empresas. Falamos de utilizadores ou condicionadores dos conteúdos e dos formatos jornalísticos mas alheios à ética e aos princípios que lhes são próprios – gestores, consultores, publicitários, especialistas de marketing e de promoção de vendas, etc., a que há que somar o peso crescente das empresas de comunicação e de assessoria, por vezes com representação directa entre os próprios jornalistas com maiores responsabilidades editoriais.
Para já não falar nos omnipresentes comentadores – alguns provenientes do campo jornalístico – apresentados ou implicitamente supostos como «independentes», mas que muitas vezes mais se assemelham a meros agentes de propaganda do arsenal ideológico da direita e do imperialismo.
O jornalismo de investigação praticamente desapareceu dos jornais, mas aumenta a presença da chamada «publicidade redigida», frequentemente mal se distinguindo, mesmo graficamente, do material noticioso (por exemplo em temas como o turismo, a restauração, a saúde, as novas tecnologias), ao mesmo tempo que ganha contornos mais sofisticados um produto mediático em que informação, publicidade, ficção e entretenimento se combinam em doses variadas. Multiplicam-se as promoções reciprocas entre órgãos do mesmo grupo (por exemplo Diário de Notícias/Jornal de Notícias/TSF, ou SIC/Expresso/Visão), com citações e remissões mútuas, geralmente motivadas não pelo interesse dos temas ou das abordagens mas pela exploração de sinergias com base em interesses comerciais.
Cultura profissional ameaçada
O predomínio da lógica comercial acarreta graves consequências para o exercício do jornalismo, num processo que, conforme já então sublinhávamos, se vem agravando progressivamente desde há mais de duas décadas.1 Tornam-se dominantes concepções como a de vender notícias, a notícia como mercadoria e não como bem social; instala-se a concorrência desenfreada e a busca obsessiva da cacha, da notícia em primeira-mão, a que se juntam, por necessidade e contaminação do online, a falta de tempo, a imediatez acrítica, que demasiadas vezes levam à precipitação e à desinformação.
Assiste-se a uma evolução perversa da cultura professional: muitos jornalistas estão a interiorizar (ou a aceitar, em defesa do posto de trabalho…) os princípios da concorrência comercial, transfigurando-os em concorrência jornalística e assumindo-a como saudável emulação profissional; os imperativos próprios da concorrência entre empresas ganham estatuto de normas e técnicas específicas da prática profissional.
A disputa entre os jornalistas na corrida pela notícia em primeira mão, muitas vezes pondo em causa regras essenciais como o cruzamento das fontes, a confirmação dos factos e o respeito por outras normas deontológicas, surge não como o resultado do interesse legítimo, louvável e prioritário em servir o público, mas sim como a transposição para o plano jornalístico daquilo que são os interesses comerciais das empresas e, por vezes simultaneamente, também os interesses político-ideológicos da classe dominante – que domina os media… dominantes.
Não há nenhum jornalista que não esteja interessado no êxito económico da empresa onde trabalha, e esta, para sobreviver, tem que dar lucro. Mas os princípios profissionais não podem (não devem…) ser sacrificados à falta de regras patronais. Os jornalistas têm um Código Deontológico, por eles elaborado, discutido e aprovado; mas para a generalidade dos que mandam nos grandes media essa coisa da deontologia jornalística é algo de estranho ao negócio, ou então é «esquecida» ou «relativizada».
O lugar central dos media
Os jornalistas são trabalhadores como outros quaisquer e, neste sentido, os seus problemas laborais não merecem nem mais nem menos relevância. Mas o lugar dos mediana sociedade, com influência decisiva na informação, formação e capacidade de decisão das pessoas, justificam a particular importância que lhes deve ser dada.
A comunicação social é um factor determinante, desde logo, nos comportamentos e opções políticas, incluindo eleitorais, dos portugueses – veja-se o verdadeiro massacre de comentadores de direita e alinhados com as estratégias do imperialismo a que temos estado sujeitos ao longo de todo o processo de recuperação capitalista. Particularmente nos últimos meses de campanhas eleitorais, que, aliás, fizeram vir à luz do dia a verdadeira essência reaccionária, e mais especificamente anticomunista, de alguns opinadores. E também de certos membros da elite jornalística, que só pela forma como fazem as perguntas e orientam os debates denunciam claramente de que lado estão…
Sublinhe-se que os media, particularmente a televisão – e para citar apenas três aspectos – fornecem conhecimento, em tanto maior escala quanto maiores forem os níveis de iliteracia e menores os de educação e cultura dos receptores; estabelecem a agenda do que as pessoas pensam e da forma como o devem pensar, não só na política como no resto; dão notoriedade e facilitam os desempenhos a quem é dada oportunidade de frequentar os estúdios com frequência, colocando em desvantagem os que raramente são convidados.
A influência não se exerce apenas pelos telejornais e outros programas, ditos de informação ou não, mas também por outras formas mais ou menos «visíveis». Por exemplo, ninguém hoje tem dúvidas do papel decisivo que as duas décadas de protagonismo televisivo de Marcelo Rebelo de Sousa tiveram na sua eleição para a Presidência. Mas vejamos outro exemplo menos óbvio: durante a campanha para as legislativas, a realização do debate televisivo entre António Costa e Passos Coelho foi amplamente promovida nos dias anteriores, o que é normal; menos normal, porém, foi o como: as imagens dos dois protagonistas apareciam acompanhadas pela tão apelativa como enganadora frase «um deles será 1.º ministro!» É legítimo admitir que esta falsidade terá levado muita gente menos informado a aderir à rábula hipócrita acerca de quem, perante os resultados eleitorais, tinha direito a formar governo. Para muitos, a «verdade» televisiva, que era também a da direita, impôs-se à realidade constitucional…

1 Ver «Jornalistas: crise de identidade e novo paradigma», in As Ciências da Comunicação na Viragem do Século, org. José Bragança de Miranda e José Frederico da Silveira, Actas do 1.º Congresso da SOPCON – Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação (1999), Vega, 2002.


Fernando Correia 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

pela liberdade de expressão em 1971 (e pela equidade em 2016?)

Documento muito interessante. Por várias razões, talvez sobretudo pelos nomes que o assinam. Todos unidos pela liberdade de expressão. E, agora, está-lo-iam pela variedade da e equidade na liberdade de expressão?



quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

A manipulação como vício - Correia da Fonseca



A manipulação como vício

Foi no passado domingo, no decurso do serão televisivo que se seguiu imediatamente ao conhecimento das primeiras sondagens. Como era previsível, desde cedo ficou clara a possibilidade da vitória à primeira volta de Marcelo Rebelo de Sousa. É certo que a escassa votação conseguida pelos dois candidatos apoiados por figuras do PS poderia dar algum regozijo aos pêèssedaicos em geral e, em especial, aos que fazem o seu trabalho nos estúdios de televisão, mas foi óbvio que esse reconforto não bastava para lhes saciar o vício da manipulação que aparentemente se tornou a sua mais forte característica profissional, fenómeno cuja gravidade se agrava quando ocorre na operadora pública de TV, paga pelos cidadãos de direita ou de esquerda. Assim, os telespectadores foram impedidos de ouvirem integralmente o comentário proferido por qualquer comunista, por muito que ele tenha sido convidado precisamente para comentar o acto eleitoral e os seus resultados a partir do estúdio: sempre surgiu um pretexto para o interromper, para acudir com urgência a um qualquer pedaço de reportagem algures, para de facto exercer alguma censura «justificável». É de esperar, naturalmente, que esse tão esforçado trabalho, essa tão óbvia vocação para a função de colocador de mordaças invisíveis mas perceptíveis, seja reconhecido e recompensado no plano das carreiras profissionais. Como já aqui foi registado não há muito tempo, «Roma» já paga a traidores; não espantará que pague também a servidores de relevo menor.
O triste «show» da noite
É claro, e ninguém o negará, que os resultados alcançados por Edgar Silva ficaram aquém do desejado e do que era legítimo esperar. Esse facto, porém, implica que lhe busquemos as causas e, assim, que nestas colunas, por obrigação especialmente atentas ao que vai acontecendo nos ecrãs dos nossos televisores, registemos a permanente cruzada anticomunista que na TV portuguesa vai decorrendo dia após dia, toda ela feita de distorções e de maiores ou menores calúnias explícitas ou implícitas, por vezes animadas por uma transparente hostilidade por parte de um ou outro dos profissionais que lhes dão voz e imagem. No serão do passado domingo, a actuação do quase emblemático José Rodrigues dos Santos avizinhou-se do caricatural: o sujeito exibia-se num estado de grande excitação perante a expectativa de a votação em Edgar Silva ser superada pela votação em Vitorino da Silva, Tino de Rans. De poucos em poucos minutos, à chegada de mais resultados parciais vindos sobretudo do Norte, José Rodrigues dos Santos embandeirava em arco, digamos assim, esbracejava numa espécie de foguetório gestual. Quando, com a chegada de mais e mais substanciais resultados, Edgar Silva passou para a frente de Tino, como seria expectável e normal, o Santos calou a informação durante largos minutos numa clara exibição de mau perder, má-fé e mau profissionalismo. Há gente assim, é claro, que não se enxerga, como dizem os brasileiros. Na verdade, o minúsculo «show» de José Rodrigues dos Santos foi o mais ridículo apontamento da noite, mas era evidente que o homem não se continha. Teve, porém, um mérito: ao nível da caricatura, foi a denúncia da militância anticomunista que integra a respiração quotidiana da televisão portuguesa. Que decerto não explica tudo, mas que seguramente explica alguma coisa.

·         Correia da Fonseca