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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Marcelo e os media: das contradições e do populismo à manipulação pura e dura - Fernando Correia



Marcelo e os media:
das contradições e do populismo à manipulação pura e dura
19 de January de 2016


O que não faltam no quotidiano das salas de redacção são professores – isto é, antigos ou actuais docentes dos vários níveis de ensino – sejam eles directores, comentadores, analistas, cronistas, jornalistas, fotógrafos, operadores de câmara, informáticos, etc. Mas conhecido por “o professor” só há um. Ele. Só que o currículo do mestre na sua ligação aos media tem muito pouco de magistral – antes pelo contrário. (Fernando Correia)

“O professor”

Apesar de o cognome de Marcelo Rebelo de Sousa (M.) se dever em grande parte à sua assumida intenção de explicar a política aos outros, julgo interessante registar o depoimento de uma jornalista que foi sua aluna há duas décadas na Faculdade de Direito de Lisboa. Eis extractos de um recente texto online de Mafalda Anjos, directora adjunta da Visão.
“Gostava de dar boas notas e, também assim, ‘comprar’” a popularidade que granjeava na Faculdade. Fazia questão de corrigir algumas dezenas de testes, para sentir o pulso à classe. Mas era tão mãos-largas nas notas que até os próprios assistentes subalternos consideravam tal generosidade estupidamente despropositada, e não o escondiam. Para quem quisesse perceber, ficava logo ali bem claro que, com Marcelo, as coisas nunca são o que parecem. Elogiar não é o mesmo que apoiar? Fumar não é o mesmo que inalar? Na cabeça de Marcelo, claro que não. É possível, de facto, dizer tudo e o seu contrário, sempre com um enorme sorriso na cara. (…) Embora adorado pelos alunos, e de longe o professor mais popular da Faculdade no meu tempo (…) nunca foi uma referência entre a doutrina em matéria de direito constitucional. (…) Sempre que me lembro de Marcelo e dos tempos da faculdade, recordo o elogio mais demolidor que alguma vez ouvi sobre alguém: ‘Gosto muito de o ouvir. Costumo concordar sempre com ele, sobretudo nos assuntos que não conheço bem’”.

“Teria de ser muito estúpido”

A relação próxima de M. com a tv tem sido muito falada, tendo em conta, nomeadamente, os últimos anos de presença dominical na TVI. Mas é preciso lembrar que o seu contacto com o público através da palavra e da imagem vem dos anos 90, com presença regular aos microfones da Rádio Renascença e da TSF. Depois veio a tv, entre 2004 e 2005 na TVI, entre 2005 e 2010 na RTP e logo a seguir novamente na TVI, assim consumando uma longa utilização dos media enquanto instrumento de notoriedade e de promoção pessoal. A sua acusação aos candidatos adversários de que, ao contrário do que acontece com ele, não se lhes conhece a posição sobre esta ou aquela situação ocorrida no passado, reveste-se de pouca seriedade e muita hipocrisia.
O apego de M. ao megafone televisivo não tem nada de desinteressado e tem muito de interesseiro. Interrogado, em devido tempo, sobre a sua permanência na tv na hipótese de vir a ser candidato, M. não hesitou na resposta: “teria de ser muito estúpido, e apesar de tudo as pessoas reconhecem-me alguma inteligência, para, podendo ter uma tribuna, até ao verão ou Outono do ano que vem, sendo as eleições em Janeiro de 2016, decidir abandonar essa tribuna um ano antes”. O certo é que só nas vésperas do anúncio da candidatura viria a deixar a preciosa “tribuna” (“lugar elevado de onde falam os oradores” e “os pregadores”, diz o Houaiss).
Realmente, estúpido não será; mas fica à liberdade do leitor escolher outros termos definidores do perfil da criatura.
O vergonhoso caso do Semanário
A ligação mais profunda de M. com os media foi na imprensa, desde logo no Expresso. Num texto tido como elogioso (Sol, 2.1.16) recorda-se que o semanário “era muitas vezes uma arma política” e que “Marcelo chegava a escrever notícias sobre si mesmo”; “inova na forma como se faz jornalismo em Portugal”, pondo, por exemplo, no verão de 1979, “jornalistas a percorrer praias e festas em busca de intrigas sociais.” Em 1981 entra para o governo presidido pelo dono do Expresso, e então, já “do outro lado da barricada do jornalismo político, servia de porta-voz de Balsemão e promovia fugas de informação selectivas para os jornais. Era uma das fontes do então jovem jornalista Paulo Portas.”
Terminemos com a evocação – e não é a primeira vez que o faço, praticamente com as mesmas palavras – de uma história edificante sobre a ligação de M. à imprensa.
Em Novembro de 1983 saía o primeiro número do Semanário (criado por M. e, entre outros, Daniel Proença de Carvalho e José Júdice) em cujo Estatuto Editorial se fazia solene profissão de fé na “liberdade”, na “Pátria”, na “bondade e dignidade do Estado”, na “unidade nacional”, na “iniciativa privada”, na “sociedade das ideias”, no “orgulho da História”, no “reencontro de um sentido espiritual como forma de ter fé na vida”, numa “informação que seja o resultado do rigor no profissionalismo” e numa “opinião que seja livre e tenha mérito”.

Mas as coisas não eram bem assim.

Treze anos volvidos, numa prosa evocativa da efeméride (“Semanário, 13 anos”, in Semanário, 30.11.96), o presidente do conselho de administração no tempo da fundação – M., pois claro – veio confessar e vangloriar-se de que, afinal, por detrás daquelas palavras estava “um projecto político militante”; que o que se pretendia com o jornal era “contestar o Bloco Central e preparar uma alternativa de centro e direita ao Partido Socialista liderante e ao Presidente da República em funções”; e que, “politicamente, o Semanário cumpriu a sua missão”, na medida em que, nomeadamente, “contribuiu decisivamente para a queda do Bloco Central, para a ‘Nova Esperança’ e a subida ao poder de Aníbal Cavaco Silva”, e “em 1987 viu completado o seu desígnio na maioria absoluta do PSD, corolário da luta de anos”.
Manipulação pura e dura, pois, de um candidato a Belém que, sabiamente, Paquete de Oliveira classificou como “um sagaz malabarista que faz do sofisma a maneira mais hábil para esconder a mentira ou a contradição” (Público, 16.1.16).

Fernando Correia
19 janeiro 2016

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

O JornaliXo que temos


Na página aberta às suas divagações a Dona Teresa de Sousa dispara flores para o seu amado e para os restantes candidatos faz floreados verbais, ignora Edgar da Silva e refere Jerónimo de Sousa e o PCP como se este fosse o candidato.  Quatro linhas num 'finalmente'.

É uma apreciação deslocada e torpe que define o profissionalismo e o caráter da Dona Teresa.

A Dona Teresa é manhosa

 
Comício na FIL, domingo 17 com Edgar Silva

sábado, 16 de janeiro de 2016

Dos truques da imprensa portuguesa

Para quem lê jornais, ouve rádios e vê televisões, há uma regra de ouro: não há acasos.
Nada acontece, nada é dito, nada é mostrado por acaso. Cada foto é escolhida meticulosamente e com um objectivo concreto. Seja para mostrar alguma coisa, seja para a esconder.
Depois de ter usufruído de um Especial Domingo, Marcelo Rebelo de Sousa usufrui também da fotos simpáticas e de um ataque feroz aos seus adversários, através de fotos que lhes penaliza a imagem. Vejam a diferença.
É, claro, um truque da imprensa portuguesa. E dos grandes.
da página facebook - truques da imprensa portuguesa

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Marcelo e seus acólitos - Ribeiro Cardoso



Marcelo e seus acólitos
8 de Janeiro de 2016


Muito se tem escrito, ultimamente, sobre Marcelo Rebelo de Sousa enquanto candidato a Belém. Mas tudo o que se diga é pouco, pois o homem, espertíssimo e descarado, há anos que se anda a preparar para esta corrida na convicção de que a verdade é irrelevante e o fundamental é a simpatia e a propaganda. Com a ideia feita de que água mole em pedra dura tanto dá até que fura. E a convicção de que somos um povo de brandos costumes, reverente perante o chico esperto e desconfiado perante o rigor e a seriedade. A que acresce a aura de catedrático. Mesmo que seja do embuste.
Porém, a generalidade dos analistas e comentadores de serviço, tem-se esquecido de abordar um ‘pequeno’ pormenor que é da maior importância e a mim muito incomoda: o papel que os media em geral e alguns jornalistas em particular, ao longo dos anos desempenharam como muletas de Marcelo. (RC)

Com sinceridade, admito que um ou outro desses jornalistas não tivesse plena consciência do seu lamentável papel concreto, do qual depois, discretamente, se afastaram.
Refiro-me, obviamente, àqueles profissionais da informação, alguns dos quais com créditos firmados na classe, que, durante anos a fio, participaram nas missas dominicais – expressão feliz de Mário Mesquita – ao lado do oficiante.
Não para fazerem perguntas ao palrador principescamente pago, não para o contraditarem – apenas para dar a aparência de um programa de informação (tais missas estiveram sempre integradas nos Telejornais). Coisa que não poderia ser mais falsa e enganadora.
Os acólitos, por norma, limitavam-se a meter uma bucha de quando em vez e assistiam, prazerosos e silenciosos, à opinião do padre. Coniventes com as escolhas dos temas a ‘debater’ e com as análises e comentários do sacerdote sobre a situação política do país, assistiam seraficamente às classificações do professor sobre tudo e todos, políticos incluídos.
Já no período final do espectáculo, o grande comentador, que na melhor das hipóteses tinha lido as badanas, apresentava 10 ou 15 livros (convenientemente seleccionados) que, às centenas, as editoras se apressavam a enviar na esperança de uma publicidadezinha; destacava e elogiava as mais diversas associações espalhadas pelo país e pela diáspora; aplaudia desportistas de todas as especialidades e regiões que tivessem obtido bons resultados; e por aí fora, sem esquecer, em muitos casos, as despudoradas cenas da entrega, aos seus compinchas televisivos travestidos de jornalistas, de pequenas e simbólicas  prendas.
Quando tais missas terminavam, padre Marcelo recolhia à sua residência paroquial e, organizado e noctívago, contabilizava, no seu livro de campanha presidencial, os ganhos obtidos, as populações tocadas/sensibilizadas, os autores referidos, os políticos que chibatara e aqueles a quem passara a mão pelo pêlo.
Punha-se também ao telefone madrugada dentro, trocando opiniões cúmplices. Consta até que, brincalhão, numa noite em que foi  à Festa do Avante, a alguns terá dito citando Ary dos Santos: “Isto vai, meus amigos, isto vai”. E logo de seguida, para, como tanto gosta, dar um ar de democrata e de esquerda qb, terá citado de cor, com uma pequenina gargalhada mefistofélica, uma parte de um belo e conhecido poema do grande Ary, embora introduzindo no último verso uma levíssima, mas significativa, alteração:
“Serei tudo o que disserem,
por temor ou negação:
Demagogo   mau profeta
Falso médico   ladrão
Prostituta    proxeneta
Espoleta   televisão.
Serei tudo o que disserem:
Político castrado  não!

Porém – e nesta história há muitos poréns – existe um pequeno senão: a careca começou a ser posta à mostra de forma sistemática. E apesar do simpático ar de cordeiro assumido despudoradamente, a campanha eleitoral muito tem trazido ao de cima – e muito vai continuar a expor, pois há registos televisivos, radiofónicos e escritos que outros candidatos têm trazido a lume, recorrendo a esse tesouro tantas vezes esquecido que se chama memória. Para que se não possa vender gato por lebre.
Voltando à televisão: simpático, entretendo e enganando o pagode na presença de profissionais da informação transformados em ‘entretainers’ complacentes, o espectáculo durou décadas – não porque de comentário isento e sério se tratasse, mas porque as audiências eram altas e a publicidade uma mina para as empresas televisivas onde o artista, bem pago, actuava. O programa foi interrompido, só e apenas, pela ambição irresistível de Marcelo em chegar a Belém.
Convencido por vozes amigas (entre as quais as de muitos inimigos…) e pelas sondagens, candidato concluiu que a sua corrida à Presidência eram favas contadas. Julgo bem que se enganou, mas a ver vamos.
Porém, se acontecer aquilo que penso e desejo, não será pelos efeitos de episódios tipo sopa Vichissoise que obrigou Portas a engolir. Ou por cuspir noutra sopa, a de Balsemão, seu patrão no semanário “Expresso”, jornal onde o apelidou alegremente de “Lelé da Cuca”…
Resumindo: se acontecer o que espero e desejo, é porque a campanha em curso serviu e está a servir para, nas suas sombras e nas suas luzes, mostrar o real carácter de Marcelo. E este ‘real’ que aqui aplico não tem nada a ver com o facto do candidato ao mais alto cargo da República Portuguesa, ser, há anos Presidente da Fundação Casa de Bragança – criada por vontade de D. Manuel II, o último rei de Portugal, com a assinatura de Salazar. Embora contribua para mostrar uma certa esquizofrenia marcelística, que quer sempre ser uma coisa e o seu contrário.
Na verdade, a sua história pessoal e política, aparentemente de grande êxito, é demasiado frágil e enganadora. Prestigiado catedrático de Direito, simpático, bem falante, popular graças à rádio (TSF) e televisão (RTP e TVI), este homem traz dentro de si, marcada a fogo, a instabilidade e a pouca seriedade política. Intelectualmente muito válido, como a muitos acontece por esse mundo fora não passa de um irrequieto e simpático enganador que, para seu mal, vive na espuma dos dias e, ao contrário do que diz, mentindo, o homem que quer substituir em Belém ( “Eu nunca me engano e raramente tenho dúvidas“), Marcelo também não tem dúvidas mas quase sempre (se) engana…
Com uma agravante: desabituado que está a ser contraditado, ontem à noite, no debate televisivo com Sampaio da Nóvoa, perdeu a fleuma e o ar superior, enervou-se publicamente como nunca se vira, ficou encostado às cordas. Falta de treino, pois claro.
É a vida.
Ribeiro Cardoso

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Manifesto - Não Matem o Mensageiro



ManifestO

'Não Matem o Mensageiro'

A contradição é aparente: na sociedade em que tudo é encenado, o Teatro está a morrer. Mas se a política, a rotina e a vida é teatralizada, se nos secundarizam num personagem menor, ou mero espectador, porque interessa tão pouco a arte do teatro?

O poder baniu a verdade dos jornais e das televisões, dos orçamentos e dos procedimentos concursais, instituindo um imenso monopólio de mentiras fingidas e verdades dissimuladas que imita o teatro e que, ao mesmo tempo, o destrói. Aos poderosos não interessa a intensidade da verdade transbordante e a emoção palpável do palco, cuja natureza teatral é assumida. Prefere a ilusão do real, a informação espectáculo, o entretenimento entorpecedor. Importa por isso combater o fingimento dos falsos com teatro genuíno, responder à Sociedade do Espectáculo de Debord com o Teatro do Oprimido de Boal. Nem todo o teatro precisa de ser político. O nosso será.

  NÃO MATEM O MENSAGEIRO é um grupo de Teatro Político português, nascido já com a sanha de espicaçar o contraditório. De questionar e fazer pensar, que de nada serve o teatro que não serve para pensar. Rejeitando ser os bobos da corte burguesa, também recusamos navegar nas inofensivas águas mornas da arte pela arte. Porque para representar farsas esdrúxulas e ficções mirabolantes já bastam banqueiros e ministros, dizemo-lo bem alto e com cristalina claridade, que também no teatro vale a pena lutar.

Como Augusto Boal “refletimos sobre o passado e ensaiamos a sua transformação no presente para inventarmos o futuro”. Como Bertold Brecht, queremos “estimular o desejo de compreender o mundo e o prazer de o transformar”. Se na luta entre as classes não há espectadores, sejamos juntos os seus actores.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Pacheco Pereira e os ‘media’

As regras do “novo” jornalismo que abandona a mediação pela “leitura” da rede e a pretensa “participação” nela, acabam por substituir uma actividade crucial na democracia por um reforço da demagogia. (José Pacheco Pereira)

sábado, 9 de janeiro de 2016