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quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Observadores estrábicos

Novo Banco. João Galamba ao lado do BE na nacionalização
4/1/2016, 17:31475 PARTILHAS
O vice-presidente da bancada parlamentar do PS põe-se ao lado do Bloco de Esquerda na solução para o Novo Banco, defendendo a sua manutenção na esfera do Estado e defende que há alternativa à venda.
·         Catarina Falcão
João Galamba, deputado e porta-voz do PS, foi rápido a responder à esquerda e põe-se ao lado do Bloco de Esquerda e do PCP, defendendo que o Novo Banco se deve manter sob o controlo do Estado. “A existência de um sistema bancário composto essencialmente por bancos privados criou um problema. Convém evitar que as regras europeias criem novos problemas”, defende o socialista, mostrando-se crítico das atuais diretrizes europeias.
Num artigo de opinião publicado no site do jornal Expresso, João Galamba, responsável nacional do PS pela comunicação, afirma que a “socialização dos custos” na queda de um banco “nunca pode ser totalmente eliminada” porque esta atividade não é possível sem uma “garantia implícita do Estado e dos contribuintes”. Por isso, e contra as normas europeias agora em vigência, Galamba defende, tal como BE e PCP, que bancos como o Novo Banco “devem ser tratados como bancos públicos e vendidos apenas se e quando o Estado os quiser vender”.
Se o Estado for obrigado a vender, então as regras deixarão de ser apenas sobre recuperação e resolução bancária, passando a constituir uma forma inaceitável de penalização da propriedade pública. (…) O Estado pode não ter alternativa a intervir, mas tem de ter alternativa a vender”, escreveu João Galamba.
Na linha deste artigo, também Jorge Costa, dirigente do Bloco de Esquerda, escreve esta segunda-feira no esquerda.net, site oficial do partido, questionando qual é a maioria que o PS vai seguir na resolução do Novo Banco. O dirigente bloquista afirma que se trata de um “projeto político” e que António Costa vai precisar de “instrumentos fortes de banca pública” para condicionarem todo o sistema bancário. “É por isso que o Novo Banco não deve ser vendido”, afirma o bloquista, consubstanciando a exigência da manutenção do Novo Banco na esfera pública, condição apresentada por Catarina Martins para a viabilização do Orçamento Retificativo.

Também o PCP é a favor da manutenção deste banco por parte do Estado, com o Comité Central do partido a insistir no final de dezembro que “a melhor solução para o Novo Banco, que o colocará de facto ao serviço da economia nacional e das famílias portuguesas, é ficar sob controlo público e não ser vendido a um ou mais grupos privados”, segundo noticiou a Lusa.


AH!

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Eles sabem e o povo também


A luta pelo controle da informação
«A Lei dos media foi aprovada em 2009 pelo Congresso argentino e estabeleceu uma cadeia de veículos de comunicação comunitários, criou o primeiro canal de TV pública e restringiu a quantidade de licenças de TV a cabo e serviços abertos. A medida obrigou muitas empresas a devolverem o excesso de licenças, e incomodou grandes grupos de mídia, dentre eles o Clarín, que iniciou uma batalha na Justiça para contestar a legislação. Em 2010, a Suprema Corte declarou que a lei é constitucional.»

sábado, 2 de janeiro de 2016

A entrevista - Correia da Fonseca




A entrevista

O jornalista é profissional de larga experiência, repórter que bem se pode dizer das arábias mas também de ucrânias, de grécias e de quaisquer outros lugares onde seja preciso fazer uma leitura ocidental e atlântica dos acontecimentos, jornalista benquisto e apreciado nas duas margens do oceano. Além do mais, estava como que em sua casa naquele canal público agora redecorado e que por vezes parece ter-lhe sido entregue, ou aos seus cuidados, para que ali possa fazer intensa prova pública dos seus méritos, que não são poucos nem subestimáveis.
Não obstante, com tudo isto e o mais que aqui se nos escapa, acontecia que o rosto do jornalista estava todo contraído, encarquilhado numa expressão de aparente incompreensão que tenta ultrapassar-se, da estranheza de quem encara um fenómeno raro e de compreensão difícil. Contudo, diante dele apenas estava um homem a ser entrevistado. Para mais, o entrevistado não oferecia dificuldades especiais, não era daqueles que se entrincheiram por detrás de fórmulas pomposas e confusas: respondia abertamente e com nitidez. Quase se poderia dizer que cumpria a antiga exigência de Mateus: «seja a tua palavra sim sim, não não, tudo o que vier a mais é malícia.» Ainda assim, porém, não parecia que o jornalista estivesse a gostar ou, talvez mais provavelmente, a entender.
É que o entrevistado tinha uma dupla característica, digamos assim, que talvez dificultasse o entendimento: era comunista e durante vários anos havia sido padre, para mais não dando quaisquer sinais de arrependimento por esse seu passado.
Sólidos
Acresce que dizer que o entrevistado era comunista é, na circunstância, dizer pouco: o entrevistado era o candidato à presidência da República que o Partido Comunista Português apoia. Aliás, ouvindo-o era fácil reconhecer essa sua circunstância ou pelo menos a sua inteira compatibilidade com ela. Lá estava a clara denúncia da exploração do homem pelo homem, verdadeiro pecado original da sociedade capitalista em que por enquanto vivemos; lá estavam o sentido da partilha e da fraterna solidariedade que é o objectivo último do projecto comunista; lá estava a indignada denúncia dos fariseus e dos seus crimes, dos vendilhões e da sua ganância, dessa denúncia decorrendo necessariamente a justeza de expulsar tal gente do amplo templo que é a sociedade em que vivemos.
Decerto por tudo isto, o rosto do jornalista, coitado, exibia-se contraído e como que intrigado, talvez incrédulo, porventura curioso. De qualquer modo, ele não estava ali para facilitar a prestação pública de um candidato comunista, não será decerto para isso que lhe pagam, e por isso decidiu confrontar um pouco o entrevistado com o seu passado e, implicitamente, com as suas presumíveis convicções, pretéritas ou actuais. Foi um mau caminho. É que, pelos vistos o jornalista não sabe nem sonha que o comunismo tem valores, princípios e objectivos não apenas compatíveis com a ética de um verdadeiro cristão mas até coincidentes com ela. É que ser cristão não é tanto ser especialmente devoto de uma santa ou de um santo quanto ser fiel à solidariedade com o nosso próximo, isto é, com o nosso camarada.
Na ignorância disto, porque decerto nunca lho ensinaram, estava o jornalista com aquele ar um pouco pasmado. Nem é absurdo supor que estivesse preocupado: o entrevistado estava a sair-se muito bem, quem o ouvisse até poderia votar nele. Tentou então colocar o entrevistado em contradição com uma conhecida síntese marxista parecendo-lhe que por aí conseguiria algum êxito. Aconteceu, porém, que o entrevistado lhe explicou com paciência verdadeiramente evangélica o conteúdo da fórmula utilizada por Marx. Decididamente, aquela não seria uma entrevista feliz para o combativo jornalista. O final do diálogo aconteceu pouco depois e ele lá ficou, talvez a recuperar do desaire. Talvez a aperceber-se concretamente de que os comunistas são sólidos.

Correia da Fonseca

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Contexto




O principal mecanismo da desinformação dos nossos media consiste em obviar o contexto adequado para se compreender uma notícia. Recorrer a um dado ou outro, um facto ou outro a acompanhar uma notícia, leva a que o leitor fique com uma ideia totalmente oposta. E isto escapa a muita gente.
(texto aqui) Pascoal Serrano, in ‘Mundo Obrero’.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Uma outra informação!

do jornal avante!:






A pescada

Referindo-se às eleições presidenciais, e em particular a Marcelo Rebelo de Sousa, designava um colunista de um jornal diário de «Presidente pescada», ou seja, antes de o ser já o era. Parece ser este mesmo o cenário destas eleições: colunistas, opinadores, jornalistas e alinhamentos de telejornais a quererem fazer crer que essa maçada das eleições é absolutamente dispensável, e que o resultado do acto eleitoral de dia 24 próximo já está definido.
São os próprios produtores de tais factos (os mesmos que há 10 e 5 anos traçavam um cenário idêntico de vitória avassaladora de Cavaco Silva), os tais que «tanto vendem sabonetes como presidentes da República», que agora registam com cínica admiração que estas eleições estão fora do centro da atenção da população, fora da prioridade das notícias, fora da atenção mediática. Curioso: quem faz alinhamentos surpreende-se com os alinhamentos…
Esta farsa feita para demonstrar que o resultado eleitoral dispensa a vontade de cada um, e é como a pescada, tem dimensões verdadeiramente despudoradas. Numa ronda de entrevistas, a SIC dedica com pompa e circunstância 43 minutos a Marcelo Rebelo de Sousa, no Jornal das 20, em jeito de «conversas em família» na Faculdade de Direito. O deleite dos entrevistadores é evidente, e tem momento alto quando Marcelo é questionado acerca da possibilidade de concorrer a um segundo mandato (!). Extraordinário. Esquecem-se, com certeza, que lhe falta ainda ganhar o primeiro…
A ronda prossegue com a entrevista a Maria de Belém e Sampaio da Nóvoa, também no Jornal das 20, mas desta vez de 23 minutos, e nos estúdios da SIC. Na «Liga dos últimos» ficam os restantes candidatos, entrevistados na SIC notícias (disponível a quem o possa pagar) e uns envergonhados 15 minutos. O tom das perguntas, como seria de esperar, não se repete. Basta pegar no exemplo da entrevista a Edgar Silva, questionado sobre a eventualidade de desistir, de quem apoiará numa segunda volta, etc., culminando com o que a entrevistadora considerou ser obrigatório sublinhar com veemência e opinião, contrariando o que o candidato havia respondido: mas o PSD ganhou as eleições!
Poderíamos enumerar outros exemplos como tantos dias de campanha, com e sem candidato, em que nos 30 segundos que a caixinha mágica permite passar sobre a candidatura de Edgar Silva, tudo é reduzido à resposta à encomenda de reacção a qualquer perdigoto de Marcelo naquela semana. Ignora-se o tema da iniciativa, a multiplicidade das vertentes do programa desta candidatura, que é protagonista por direito próprio, desta batalha eleitoral.

No dia 4 de Outubro passado, os «vendedores de sabonetes» enganaram-se, o povo português frustrou a campanha que desencadearam ao longo de meses. Dia 24 de Janeiro, o povo português lá estará, com o poder na mão de não juntar o seu voto ao de Passos Coelho, Paulo Portas, Cavaco Silva e Ricardo Salgado, rejeitando o seu candidato – Marcelo Rebelo de Sousa – e tomando partido pelos valores de Abril com o voto em Edgar Silva – um homem justo para Presidente.