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segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Eles sabem e o povo também


A luta pelo controle da informação
«A Lei dos media foi aprovada em 2009 pelo Congresso argentino e estabeleceu uma cadeia de veículos de comunicação comunitários, criou o primeiro canal de TV pública e restringiu a quantidade de licenças de TV a cabo e serviços abertos. A medida obrigou muitas empresas a devolverem o excesso de licenças, e incomodou grandes grupos de mídia, dentre eles o Clarín, que iniciou uma batalha na Justiça para contestar a legislação. Em 2010, a Suprema Corte declarou que a lei é constitucional.»

sábado, 2 de janeiro de 2016

A entrevista - Correia da Fonseca




A entrevista

O jornalista é profissional de larga experiência, repórter que bem se pode dizer das arábias mas também de ucrânias, de grécias e de quaisquer outros lugares onde seja preciso fazer uma leitura ocidental e atlântica dos acontecimentos, jornalista benquisto e apreciado nas duas margens do oceano. Além do mais, estava como que em sua casa naquele canal público agora redecorado e que por vezes parece ter-lhe sido entregue, ou aos seus cuidados, para que ali possa fazer intensa prova pública dos seus méritos, que não são poucos nem subestimáveis.
Não obstante, com tudo isto e o mais que aqui se nos escapa, acontecia que o rosto do jornalista estava todo contraído, encarquilhado numa expressão de aparente incompreensão que tenta ultrapassar-se, da estranheza de quem encara um fenómeno raro e de compreensão difícil. Contudo, diante dele apenas estava um homem a ser entrevistado. Para mais, o entrevistado não oferecia dificuldades especiais, não era daqueles que se entrincheiram por detrás de fórmulas pomposas e confusas: respondia abertamente e com nitidez. Quase se poderia dizer que cumpria a antiga exigência de Mateus: «seja a tua palavra sim sim, não não, tudo o que vier a mais é malícia.» Ainda assim, porém, não parecia que o jornalista estivesse a gostar ou, talvez mais provavelmente, a entender.
É que o entrevistado tinha uma dupla característica, digamos assim, que talvez dificultasse o entendimento: era comunista e durante vários anos havia sido padre, para mais não dando quaisquer sinais de arrependimento por esse seu passado.
Sólidos
Acresce que dizer que o entrevistado era comunista é, na circunstância, dizer pouco: o entrevistado era o candidato à presidência da República que o Partido Comunista Português apoia. Aliás, ouvindo-o era fácil reconhecer essa sua circunstância ou pelo menos a sua inteira compatibilidade com ela. Lá estava a clara denúncia da exploração do homem pelo homem, verdadeiro pecado original da sociedade capitalista em que por enquanto vivemos; lá estavam o sentido da partilha e da fraterna solidariedade que é o objectivo último do projecto comunista; lá estava a indignada denúncia dos fariseus e dos seus crimes, dos vendilhões e da sua ganância, dessa denúncia decorrendo necessariamente a justeza de expulsar tal gente do amplo templo que é a sociedade em que vivemos.
Decerto por tudo isto, o rosto do jornalista, coitado, exibia-se contraído e como que intrigado, talvez incrédulo, porventura curioso. De qualquer modo, ele não estava ali para facilitar a prestação pública de um candidato comunista, não será decerto para isso que lhe pagam, e por isso decidiu confrontar um pouco o entrevistado com o seu passado e, implicitamente, com as suas presumíveis convicções, pretéritas ou actuais. Foi um mau caminho. É que, pelos vistos o jornalista não sabe nem sonha que o comunismo tem valores, princípios e objectivos não apenas compatíveis com a ética de um verdadeiro cristão mas até coincidentes com ela. É que ser cristão não é tanto ser especialmente devoto de uma santa ou de um santo quanto ser fiel à solidariedade com o nosso próximo, isto é, com o nosso camarada.
Na ignorância disto, porque decerto nunca lho ensinaram, estava o jornalista com aquele ar um pouco pasmado. Nem é absurdo supor que estivesse preocupado: o entrevistado estava a sair-se muito bem, quem o ouvisse até poderia votar nele. Tentou então colocar o entrevistado em contradição com uma conhecida síntese marxista parecendo-lhe que por aí conseguiria algum êxito. Aconteceu, porém, que o entrevistado lhe explicou com paciência verdadeiramente evangélica o conteúdo da fórmula utilizada por Marx. Decididamente, aquela não seria uma entrevista feliz para o combativo jornalista. O final do diálogo aconteceu pouco depois e ele lá ficou, talvez a recuperar do desaire. Talvez a aperceber-se concretamente de que os comunistas são sólidos.

Correia da Fonseca

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Contexto




O principal mecanismo da desinformação dos nossos media consiste em obviar o contexto adequado para se compreender uma notícia. Recorrer a um dado ou outro, um facto ou outro a acompanhar uma notícia, leva a que o leitor fique com uma ideia totalmente oposta. E isto escapa a muita gente.
(texto aqui) Pascoal Serrano, in ‘Mundo Obrero’.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Uma outra informação!

do jornal avante!:






A pescada

Referindo-se às eleições presidenciais, e em particular a Marcelo Rebelo de Sousa, designava um colunista de um jornal diário de «Presidente pescada», ou seja, antes de o ser já o era. Parece ser este mesmo o cenário destas eleições: colunistas, opinadores, jornalistas e alinhamentos de telejornais a quererem fazer crer que essa maçada das eleições é absolutamente dispensável, e que o resultado do acto eleitoral de dia 24 próximo já está definido.
São os próprios produtores de tais factos (os mesmos que há 10 e 5 anos traçavam um cenário idêntico de vitória avassaladora de Cavaco Silva), os tais que «tanto vendem sabonetes como presidentes da República», que agora registam com cínica admiração que estas eleições estão fora do centro da atenção da população, fora da prioridade das notícias, fora da atenção mediática. Curioso: quem faz alinhamentos surpreende-se com os alinhamentos…
Esta farsa feita para demonstrar que o resultado eleitoral dispensa a vontade de cada um, e é como a pescada, tem dimensões verdadeiramente despudoradas. Numa ronda de entrevistas, a SIC dedica com pompa e circunstância 43 minutos a Marcelo Rebelo de Sousa, no Jornal das 20, em jeito de «conversas em família» na Faculdade de Direito. O deleite dos entrevistadores é evidente, e tem momento alto quando Marcelo é questionado acerca da possibilidade de concorrer a um segundo mandato (!). Extraordinário. Esquecem-se, com certeza, que lhe falta ainda ganhar o primeiro…
A ronda prossegue com a entrevista a Maria de Belém e Sampaio da Nóvoa, também no Jornal das 20, mas desta vez de 23 minutos, e nos estúdios da SIC. Na «Liga dos últimos» ficam os restantes candidatos, entrevistados na SIC notícias (disponível a quem o possa pagar) e uns envergonhados 15 minutos. O tom das perguntas, como seria de esperar, não se repete. Basta pegar no exemplo da entrevista a Edgar Silva, questionado sobre a eventualidade de desistir, de quem apoiará numa segunda volta, etc., culminando com o que a entrevistadora considerou ser obrigatório sublinhar com veemência e opinião, contrariando o que o candidato havia respondido: mas o PSD ganhou as eleições!
Poderíamos enumerar outros exemplos como tantos dias de campanha, com e sem candidato, em que nos 30 segundos que a caixinha mágica permite passar sobre a candidatura de Edgar Silva, tudo é reduzido à resposta à encomenda de reacção a qualquer perdigoto de Marcelo naquela semana. Ignora-se o tema da iniciativa, a multiplicidade das vertentes do programa desta candidatura, que é protagonista por direito próprio, desta batalha eleitoral.

No dia 4 de Outubro passado, os «vendedores de sabonetes» enganaram-se, o povo português frustrou a campanha que desencadearam ao longo de meses. Dia 24 de Janeiro, o povo português lá estará, com o poder na mão de não juntar o seu voto ao de Passos Coelho, Paulo Portas, Cavaco Silva e Ricardo Salgado, rejeitando o seu candidato – Marcelo Rebelo de Sousa – e tomando partido pelos valores de Abril com o voto em Edgar Silva – um homem justo para Presidente.

Os dez candidatos


Há candidatos e candidatos, a comunicação social que o diga! Mas diga-se também que não é com a ajuda dela que eu vou lá!... É demasiado evidente a sua dependência e o seu propósito de ocultar informação! Se assim não fosse não passaria o tempo a tentar justificar a sua independência e a sua missão de informar.

Sei que são dez, já não é mau saber o número! Por direito, deveriam todos ter direito a igual consideração. Não é o caso no que toca a informação disponível, pelo que estou muito confuso.
No entanto, tirando uma daqui e outra dali, já sei quem são os dez.

Gosto da gravata e do mediatismo do  Paulo Morais.
Aprecio a pureza e os ideais do Edgar da Silva.
Dá-me gozo ver um tipo empreendedor e com a dureza do Henrique Neto.
Sinto prazer e afeto ao olhar para a Marisa Matias e para a sua sinceridade.
Emociona-me a lata, a laca e a fragilidade da Maria de Belém.
Admiro gente académica e que veste bem como o Sampaio da Nóvoa.
Fico contente por conhecer desconhecidos como o Jorge Cerqueira.
Entusiasma-me o sonho e a autenticidade do Tino de Rans.
Fico perplexo com as motivações do Cândido Ferreira.
Mas do que gosto mesmo,
que aprecio,
que me dá gozo e prazer,
que me emociona,
que admiro e me põe contente, 
que me entusiasma e me deixa perplexo,
é a humildade e a independência do Professor Doutor Marcelo!
Há tanto tempo que conheço o homem e nunca me tinha apercebido dessas suas qualidades!
Afinal a cobertura mediática das campanhas ainda serve para alguma coisa!

E só não voto nele, porque não estou convencido que alguém verdadeiramente humilde e independente alguma vez se lembre de se candidatar a Presidente do Reino!


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

A falta do ponto e vírgula vermelho


Esta é a foto-montagem de fundo de um dos muitos balanços que a comunicação social faz do ano de 2015.  É a que vem, hoje, no sapo-on line, de origem na renascença e atrás do título 2015. O ANO DAS VÍRGULAS COR DE ROSA.
Tem António Costa como centro (está certo!), Sócrates em baixo (mas a estrebuchar...), ladeado por duas figuras do espectáculo desportivo, o incontornável (!) Jorge Jesus e um guarda-redes que terá defendido um penalti. Na fileira de cima tem-se, a sair pela esquerda alta do espectador (não deveria ser pela direita baixa?), Cavaco Silva, Catarina Martins em alto relevo, Paulo Portas e Passos Coelho encabulados (e teriam bastos motivos se tivessem vergonha... então depois do episódio Banif!) e Mariana Mortágua a espreitar.
É uma amostra das evidências personalizadas do ano. Ao friso, acrescentar-se-ia, justamente, Maria Luís e Carlos Costa.
Mas, falando sério, não é escandalosa a ausência de uma referência, neste friso, de um personagem qualquer identificável com o PCP (Jerónimo, João Oliveira, Miguel Tiago, Edgar Silva)?, não será esta mais uma gritante prova da intenção de o apagar do leque das referências, da manipulação ideológica da/pela comunicação social?!  

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

“A Intoxicação Linguística” - Vicente Romano


A Intoxicação Linguística”[DERIVA] de Vicente Romano (pág. 11 do Primeiro Capítulo).


«Numa entrevista concedida no Outono de 1952 ao New York Times, Albert Einstein explicava por que não podia ser criadora de ciência a pessoa carente de visão do mundo e de consciência histórica. Não basta ensinar uma especialidade, afirmava. Dessa forma até se pode ser uma máquina proveitosa, mas nunca uma pessoa valiosa. O que importa é perceber aquilo a que vale a pena aspirar. De outra forma, com todo o conhecimento especializado, fica-se mais parecido com um cão treinado do que com uma personalidade harmonicamente dotada.
O cientista tem de conhecer as motivações dos seres humanos, aprender a conhecer as suas aspirações e as suas dores, adquirir uma atitude correcta diante do próximo e da comunidade. (Albrecht, 1979:9)
Estas preciosas qualidades adquirem-se no contacto entre as pessoas e não apenas nos livros de texto e através da especialização precoce. Isto é o que constitui, essencialmente, a cultura.
Entre os traços fundamentais de uma educação conta-se o desenvolvimento de uma consciência crítica nos jovens, um pensamento que conduza a uma vontade democrática. Perante isto, caberia questionar: a) se a crescente especialização implica o distanciamento dos cientistas e especialistas relativamente à filosofia; b) que contributo dão hoje os cientistas para o desenvolvimento de uma imagem efectivamente cientifica do mundo. (5)
Quanto melhor se entenda a relação entre cosmovisão, pensamento e conhecimento, tanto mais se facilitará a compreensão do devir histórico desta relação. “Mas o pensamento teórico” – apontava Engels na Dialéctica da Natureza – “não é uma qualidade inata, segundo a disposição. É preciso desenvolver, educar essa disposição e para tal educação não existe até hoje melhor recurso do que o estudo da filosofia. O pensamento teórico de cada época, e também o da nossa, é um produto histórico que adopta formas e conteúdos muito diferentes em tempos diferentes. A ciência do pensamento é, pois, como qualquer outra, uma ciência histórica, a ciência do desenvolvimento do pensamento humano”.
A linguagem, como terrorismo, dirige-se aos civis e gera medo, exerce violência simbólica ou psicológica. Produz efeitos que vão para além do significado. As palavras são como doses minúsculas de veneno que podemos engolir sem nos darmos conta. À primeira vista não parecem provocar efeito, mas ao fim de um tempo acaba por manifestar-se a reacção tóxica. “O homem é tão propenso ao efeito hipnótico dos lemas como às doenças contagiosas”, dizia Köestler. A mais letal das armas é a linguagem. Sem palavras não há guerra.»


(5) A recente (2007) disposição governamental – de um Executivo auto-denominado socialista – que suprime a específica de Filosofia no final dos estudos pré-universitários em Portugal dir-nos-á muito sobre este crucial ponto sublinhado por Vicente Romano (NT).


terça-feira, 22 de dezembro de 2015