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quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Data funesta



25 DE NOVEMBRO

por César Príncipe
 
O golpe iniciou-se em Novembro, dia 25. Prolongou-se pela madrugada de 26. Corria o Ano da Desgraça de 1967. Oliveira Salazar presidia ao Governo. Américo Tomás presidia à República. Santos Júnior era ministro do Interior. Deus, ao que se presumia e alardeava, tinha Portugal sob custódia há oito séculos. Fátima acabava de ser visitada, no 13 de Maio, pelo papa Paulo VI que (pelo sim, pelo não) evitou escalar Lisboa. Temeu maus encontros. Diz-se que não quis comprometer-se com o regime do Império e de Deus, Pátria, Família. E certamente teria os seus presságios quanto a trombas humanas e pluviométricas. No tocante ao resto, ao que se propagandeava, imperava a Ordem e a Tranquilidade. Vivíamos em paz. De facto, só estávamos em guerra policial contra a população civil desde 1926. Na realidade, só estávamos em guerra militar contra os movimentos armados de libertação desde 1961.
Os acontecimentos do 25 de Novembro levaram o estado de calamidade a parte da capital e da região envolvente. Tudo começou com medonhos trovões, fortes rajadas, chuvas diluvianas. Os céus desabaram. As águas ocuparam ruas e casas, berços e campas. O saldo foi pavoroso. As autoridades reconheceram a custo e a conta-gotas a existência de 462 mortos. No entanto, as estatísticas revelar-se-iam mais pesadas. A história regista outros números: cerca de 700 vítimas mortais e mais de 1000 desalojados. A Censura afadigava-se para manter a verdade nos varais. Emanava ordens patéticas e categóricas para os órgãos de comunicação. Por exemplo, para a Rádio Clube Português: A partir de agora não morreu mais ninguém. Por exemplo, para o Jornal de Notícias: Urnas e coisas semelhantes: não adianta nada e é chocante. Não falar do mau cheiro dos cadáveres (nem) das actividades beneméritas dos estudantes. É altura de acabar com isso. É altura de pôr os títulos mais pequenos. Somente o clandestino Avante! (Dezembro de 1967) não acatava directivas da Censura: As inundações não teriam originado semelhante tragédia se o governo se tivesse preocupado em resolver da habitação para os trabalhadores, se tivesse cuidado da regulamentação dos rios e da defesa das populações ribeirinhas, se tivesse tomado as medidas de emergência que as circunstâncias impunham (...) porque não foram destruídos pelas chuvas diluvianas os bairros residenciais de Lisboa, mas sim os bairros de Urmeira, Olival Basto, Pombais...Quinta do Silvade, Odivelas (…) os bairros arrasados encontravam-se em zonas baixas, circundadas de colinas, facilmente inundáveis, construídos de tábuas e lata (…) desde há muito que se clama contra o assoreamento dos rios, contra a falta de diques. Desde há muito que se protesta contra os fenómenos de erosão…Nem a mais pequena verba para a regularização das águas do Tejo (…)
E afinal qual a justificação final e oficial para a catástrofe? Ei-la (e não pasmem!), pois continua revista e actualizada: nada tinha a ver com condições sociais, urbanizações precárias ou ilegais, assoreamentos, ribeiras encanadas, colectores bloqueados, deficiências de socorro. Insignes figuras políticas e religiosas remeteram as responsabilidades para a esfera divina. E sabe-se: a cólera dos deuses é milenar. De resto, na linha do jesuíta Gabriel Malagrida que debitou o terramoto de 1 de Novembro de 1755 na conta-corrente dos pecados do marquês de Pombal e dos seus sequazes. Ao fim e ao cabo, também na linha de Calvão da Silva, ministro da Administração Interna, sucessor de Santos Júnior, que a respeito das inundações da Albufeira (2015) logo detectou a mão das forças demoníacas, aceitando como item da teologia pragmática a insensibilidade do Criador: Deus nem sempre é amigo. No afã desculpacionista, apenas cometeu um deslize de angariador de apólices: aconselhou os portugueses a confiar mais nas Companhias de Seguros do que no Omnipotente e Misericordioso. Demonstrou, contudo - vá lá - visionária compaixão ao referir-me ao morto de Boliqueime: Entregou-se a Deus. No fundo, CS, apesar de tantas sanhas e indiferenças das potestades, andou com sorte: apenas foi rejeitado, com o demais lote governamental, pela Assembleia da República. E idêntico e benévolo despacho mereceu SJ, o ministro das cheias de 1967, o ministro da brutal repressão das manifestações estudantis e operárias de 1962, o ministro da PIDE (1961-1969), a que assassinou o general Humberto Delgado, obviamente com a sua chancela, em 1965. SJ foi dispensado pelo marcelismo. Sinais dos tempos: evolução na continuidade. O Júnior deu lugar ao Rapazote. Pior destino teve Malagrida, alvo de auto-de-fé: (…) que com baraço e pregão seja levado pelas ruas públicas desta cidade à Praça do Rossio e que nela morra morte natural de garrote, e que depois de morto seja seu corpo queimado e reduzido a pó e cinza, para que dele e sua sepultura não haja memória alguma.
Novembro, 25.
Data funesta.

domingo, 22 de novembro de 2015

"informação" manipuladora

Este é um exemplo esclarecedor (para quem se quiser esclarecido...) de uma comunicação social matreira, desinformativa ao confundir informação com opinião ou presunção (nalguns casos com água benta...), manipuladora,  não só para manter a expectativa do passante que apenas espreita os escaparates dos quiosques e, quiçá, criar reacções primárias ao primário sujeito que ocupa o lugar de Presidência da República.




quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Realidade Distorcida


 

Haverá actividade mais fácil do que a distorção da realidade?
Até se pode considerar uma expressão artística!


"rapinado" a um blog
- quarteto de alexandria -
onde a imagem e a legenda 
são acompanhadas 
por música igualmente impressionante 

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Porque de cultura se trata…



A cultura é dos subalternos
António Guerreiro
Público 13/11/2015 (aqui)

Temos os jornais, a televisão por satélite e por cabo, o Google, o facebook, estamos imersos no mundo da informação e a esfera pública alargou-se tanto que já engloba territórios consideráveis do espaço privado. No entanto, ao contrário do que tinha sido previsto e anunciado, é hoje evidente que nada disto permite a realização da ideia de uma sociedade civil a proliferar por si mesma, nem de uma esfera pública definida pela transparência e pela ideia emancipadora de socialização da cultura. Fixando-nos em latitudes muito portuguesas, podemos hoje perceber que há uma preocupante hegemonia de uma subcultura e de tudo o que opera no sentido do abaixamento e da degradação. Refiro-me a este curioso  fenómeno: o discurso e o debate, os temas e as questões que circulam rapidamente e em larga escala no espaço público são determinados pelos centros de irradiação de uma cultura acrítica e de massa, aquela que – escreveu uma vez um heterodoxo matemático e filósofo francês, Gilles Châtelet – se aplica a “devorar o Diferente, para cagar o Mesmo”. Ou seja, são os escritores subalternos, os animadores da televisão e os profissionais da idiotice impressa ou teledifundida, munidos de um vasto arsenal de instrumentos, que se tornaram os grandes mediadores. É através deles que se acendem as discussões políticas, ideológicas, culturais, à medida do exíguo espaço mental e da lógica do fait divers de onde nasceram. Por isso, parece que estamos sempre imersos numa tagarelice de filisteus. Esta guarda avançada colocou na sombra e em lugar recuado as elites universitárias das ciências sociais e humanas (as ciências exactas, por razões explicáveis, foram sempre avessas à “publicidade”, no sentido mais próprio do termo). Não é que a virtude e o saber estejam apenas desse lado. Longe disso, e devemos ser muito críticos em relação a qualquer reivindicação de superioridade e exclusividade vinda daí. Mas certamente que também não estão em exclusivo do outro lado, como parece o caso. Há hoje um défice enorme, em Portugal, da palavra vinda do interior dos vários campos do saber, seja porque ninguém a quer ouvir, seja porque as condições adversas obrigaram a uma retracção. Veja-se um exemplo que me impressionou bastante: este Verão, no final de Agosto, morreu um dos maiores cientistas sociais que Portugal alguma vez teve, o sociólogo Hermínio Martins, e em termos públicos o silêncio foi quase total. Aquele homem morreu quase como um desconhecido nos meios “profanos”. Os media gostam é de sociólogos espontâneos, de atrevidos repórteres sociais ou de quem faz sociologia para uso jornalístico. E assim se escancararam as portas aos “grandes redutores”. Mas, mais do que um retracção forçada, existe mesmo por parte destas elites uma tendência para entrar na tagarelice e fazer o seu jogo. Há de facto demasiada mistura e indistinção entre a alta cultura e esta subcultura produzida ou induzida pelos media, de tal modo que deixámos de saber quem legitima quem e a que campo pertencem certos protagonistas. E há, muitas vezes, a incompreensão deste facto: enquanto um “especialista” (ou alguém a que noutros tempos chamaríamos “intelectual”) não pode, sem ficar diminuído no seu prestígio, ser apanhado pelos seus pares no discurso ignorante ou fraudulento, o indivíduo da classe mediático-populista nunca é destituído, mesmo que insista em dizer idiotices. Ele mantém-se por força de uma imagem e de um “estilo”. Pode ser um exemplo de estupidez, mas a estupidez, disse uma vez Schiller, nem os deuses a podem combater. 

Do slogan à prática




Do slogan à prática

Isenção, isenção, isenção: foi este o lema sob o qual o canal informativo se transformou na noite da derrota do PSD/CDS, assumindo o nome de RTP3 e o rigor, isenção e pluralismo como princípios editoriais orientadores. Apresentou-se aos portugueses como um espaço novo e plural, que se pretendia diferente das práticas até aí seguidas, nas palavras do director de informação da RTP «um canal de referência no qual os portugueses se revejam porque é o canal de todos». Um mês depois das alterações feitas à grelha de programação do canal já se percebe claramente o seu posicionamento, nomeadamente dos painéis de comentário dos principais programas.
À segunda-feira à noite temos «O Direito e o Avesso», sobre Justiça, com dois comentadores residentes: José Pinto Ribeiro, ministro da Cultura do governo PS entre 2007 e 2009, e Saragoça da Matta, candidato falhado do PSD ao Tribunal Constitucional em 2012.
Terça-feira à noite o destaque vai para a economia com «Os Números do Dinheiro». Neste, o painel é composto por Braga de Macedo, ministro das Finanças de Cavaco entre 1991 e 1993, Teixeira dos Santos, ministro das Finanças de Sócrates entre 2005 e 2011, e Ricardo Pais Mamede, economista.
Nas noites de sexta-feira são as notícias que vão a análise em «O Último Apaga a Luz», onde pontuam Raquel Varela, historiadora especialista na deturpação do papel do PCP na Revolução de Abril, Joaquim Vieira, jornalista, Rodrigo Moita de Deus, autor do blogue «31 da Armada» e activista monárquico, Virgílio Castelo, actor e apoiante do PS nas últimas eleições, e Pedro Vieira, humorista e escritor.
Ao sábado, o comentário da semana é feito em «O Princípio da Incerteza» e fica a cargo de Viriato Soromenho Marques, mandatário do Livre/Tempo de Avançar em Setúbal nas últimas legislativas, e Helena Matos, colunista do Observador, autora de livros sobre Salazar e particularmente conhecida pelo seu furioso anticomunismo.
Também ao sábado, mas mais tarde, vai para o ar «Política Sueca». Neste programa de análise dos temas da semana política têm lugar Cristina Azevedo, dirigente de organismo regionais nomeada por governos do PS, Cerveira Pinto, ex-líder da LCI, e Nicolau Vale Pais, colunista do Jornal de Negócios.
Com esta amostra vemos o rigor, isenção e pluralismo que marcam a nova vida do canal informativo da RTP. A pluralidade é posta em causa quando o comentário político, em regra, é uma coutada de ex-ministros, nomeados, candidatos e apoiantes de PS e PSD, a par de outras figuras que se destacam pelo anticomunismo. Não é a rara excepção, de uma ou outra fugaz aparição para ornamentar a imagem, que esconde a falta de rigor da RTP3 que chega ao seu lema: nem um vislumbre de isenção e pluralismo.
O serviço público que cabe à RTP exige mais do que a repetição de slogans sem qualquer colagem com a sua prática. Ao invés de contribuir para a campanha de manipulação dos resultados eleitorais, de contribuir para a campanha anticomunista, exige-se que cumpra aquilo que anunciou na noite de 4 de Outubro: rigor, isenção e pluralismo.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

As OPINIÕES que o PÚBLICO publica e a que dá destaque de 1ª página



ao primeiro, perguntar-se-ia
para quê o acrescento de
"do Ocidente"?,
é "um ocidental sem vergonha" 
e... pronto, tudo dito!;
ao segundo, informar~se-ia
que Cavaco não tem que dar posse,
tem, antes, de indigitar,
e, antes de tudo, de cumprir a Constituição
que jurou 
e no/para cumprimento da cuja está onde está!

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

No dia seguinte

Ontem, na Assembleia da República e em consequência dos resultados eleitorais de 4 de Outubro, deu-se uma mudança muito significativa na situação política portuguesa. A governação PSD-PP foi interrompida, foi-lhe posto um fim. Assim aconteceu porque se aproveitaram as condições criadas pelas legislativas (não "governativas"...), possibilitando e validando a interpretação de que era esse o sentido do voto, concretizando a inequívoca vontade popular manifestada de muitas outras formas.
Assim se criaram as condições para um outro rumo para a política, o social, a economia. Passo num caminho fácil? Evidentemente que não! Passo laboriosamente - e seriamente! - preparado, no respeito institucional/constitucional, e na expectativa de próximo e idêntico respeito da parte de quem ocupa a Presidência da República.
Entretanto, conhecem-se e dão-se a conhecer reacções (da reacção). De estupefacção, de desespero, de ira. Como é possível, depois de 40 anos de posse e/ou partilha do poder em diferentes formas e combinações, verem-se afastados da governação dois partidos nela enquistados?
Mas essa reacção não se estranha, e há que ter atenção a (e cuidado com) sequentes manifestações.
Para enfraquecer o que possibilitou este passo e se prepara - repito: laboriosa e seriamente - para iniciar um caminho, começaram a aparecer e a inventar-se artes e manhas. 
A de BE, PCP e PEV não se terem comprometido a não propor (ou a votar contra) moções de censura a um governo minoritário do PS é a mais mirabolante (talvez apenas superada pela de se exigir, eventualmente, a presença e o apadrinhamento do Papa Francisco numa espécie de casamento, e como garante da eternidade de união dos nubentes...).
Repare-se nesta pérola na manchete da 1ª página do jornal de mais vetusta referência, no dia seguinte à rejeição de um governo PSD-PP por todos os outros deputados:


O espectáculo vai continuar!