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terça-feira, 3 de novembro de 2015

Já ninguém diz o meu jornal, o nosso jornal

SOBRE O RUÍDO DE FUNDO

  
            Entrei nas páginas dos diários em 1960 (Diário de Lisboa/Suplemento Juvenil). Um latino socorrer-se-ia da vulgata In illo tempore. Um português do vulgo coçaria a cabeça: Foda-se! Há que tempos! Um coronel do Antigo Regime interpelaria uma ordenança do Novo Regime: O gajo resistiu ao lápis? Ainda escreve? Não o tenho visto. Nem sequer na Necrologia. Vos digo: não fujo ao In illo na construção do presente. Arreigadamente. Serenamente. Com eterna nostalgia e fraterna rebelião. Numa fortaleza fixa (de papel), extensão da fortaleza móvel (cibernáutica). Sou um combatente todo-o-terreno. À superfície da Terra. Sê-lo-ei debaixo da terra.
Há que tempos!
Entrei nas páginas dos jornais quando as máquinas de escrever falavam. Na altura, além dos animais, também os jornalistas falavam. Além disso, escreviam, discutiam, zangavam-se, conversavam, contavam anedotas. Quase sempre em voz alta. As direcções e as chefias (pelo menos, algumas) participavam no frenesim do nascimento quotidiano do jornal. Os colaboradores, os tipógrafos, os administrativos, os motoristas, os contínuos também integravam a sinfónica. A Redacção era um campo aberto, de fogo cruzado. Comecei a aprender que era essencial ter boca para escre(ver). Descobri que falar era pensar alto e redundava num expresso compromisso. Com a Redacção, a Sociedade, a Cultura, a Língua, a Civilização. Consequentemente, prenúncio de acção. Lúcida e determinada. Liberta e libertadora. Mas o matraqueado da máquina de escrever ficou como marcador ambiental. A Redacção assemelhava-se, a certas horas de ponta, a um pavilhão fabril e febril, a um concerto de teclados. Não é que tenha saudades das velhas máquinas.
Digo-vos. Tenho saudades do ruído de fundo.
Ouvi dizer que a mordaça de alta tecnologia e baixa ideologia se impôs, pouco a pouco, de Sul para Norte. Os computadores não falam. Já se sabia. São perigosíssimos. Ardilosos. Como certas doenças. E os jornalistas? Pouco falam ou falam de insignificâncias ou do importante para o business. Não é de agora, não é. Mas o mal alastrou. Agudizou-se. Foi duro saber e confirmar. Dizem-me que bem-pensar é o que está dito, que contra-agir é interdito. Também consta que os leitores dão mostras de impaciência com a quietude ou a insonorização dos teclados. A voz da rua não reconhece o produto como seu. Já ninguém diz o meu jornal, o nosso jornal, a não ser algum accionista, governante ou banqueiro. Sei lá: algum publicitário de açaimos ou algum pajem de Anfitrião ou de call center da Nova Mocidade Portuguesa. Sei lá: um dos que confundem Imprensa com empresa ou central de fretes, Rádio com amplificador de feirante ou festivaleiro, Televisão com escola de massas neerdenthalizadas, narcotizadas com spray de écran.
Sei lá. Isto é: bem sei. Sei lá: bem avisei.
Convidaram-me a visitar uma PLM/Plataforma Logística Multimédia. Hesitei. Juraram-me que era uma antiga redacção. Objectei. Já sabia que os computadores trabalhavam pela calada. Preveniram-me que os jornalistas cerravam os lábios por causa da gripe NC/Nova Censura, que afecta sobremaneira a classe desde que o poder das redacções foi esvaziado na Lei de Imprensa; desde que privatizaram, rapidamente e em força, o Sector de Comunicação Social Público; desde que iniciaram a limpeza da geração das conquistas democráticas, propondo rescisões amigáveis e apertando a grelha cívica das admissões; desde que as entidades patronais deixaram cair o princípio de negociação; desde que se concedeu Carteira Profissional a todos os que assinavam o nome e juravam fidelidade aos Donos Disto Tudo; desde que encerraram a Caixa de Previdência, mandando os beneficiários e os seus descontos para as urgências do adiamento e do caos, os corredores da vida ou morte lenta.
Sinto a falta de ruído. A minha última máquina foi uma Messa. Se a interrogarem, fará saltar a tecla C: este tipo é Camarada. Se fizerem a mesma pergunta a um computador, também é capaz de fazer saltar a tecla C: este tipo é Chip. É certo que sempre houve de tudo. Nas farmácias dos espíritos como nas farmácias dos corpos. É certo que também hoje há profissionais competentes, criativos, combativos e honrados.
Quantos?
E onde?
Marquemos encontros de gerações.
Um viril plenário contra o silêncio.

CÉSAR PRÍNCIPE

III Encontro de Gerações JN, Coimbra (O Cantinho dos Reis), 31/10/2015





domingo, 1 de novembro de 2015

Uma comunicação social hegemonizada pela direita



Nota dos Editores de odiario.info

Uma comunicação social hegemonizada pela direita
A situação política decorrente das eleições de 4 de Outubro permanece incerta. Mas a alteração que introduziu na correlação de forças parlamentar tem produzido algumas importantes clarificações.
Uma delas diz respeito ao panorama dos grandes órgãos de comunicação social, e à hegemonia da direita em todos eles, da linha editorial à esmagadora maioria dos comentadores e cronistas. De boa parte já era conhecido o reaccionarismo e a cega fidelidade ao grande capital. Outros passaram da justificação “técnica” das bárbaras políticas de exploração, desigualdade e marginalização social que a actual crise do capitalismo agudizou - sob a forma de “memorandos” e outras - ao mais cavernícola anticomunismo. Outros passaram de uma falsa “esquerda” a posições de extrema-direita. Todos dispõem de todo o espaço e de todo o tempo para produzirem um massacre ideológico diário, repetindo e partilhando obcessivamente os mesmos argumentos, os mesmos preconceitos e os mesmos espantalhos.
A informação é manipulada e a realidade é moldada a esta avassaladora campanha. A mesma comunicação social que permitiu que o governo PSD/CDS fizesse passar durante mais de um ano os seus falsos “sucessos” na economia e no emprego trata agora a tomada de posse do governo de Passos e Portas como se tal encenação constituísse uma realidade. E é essa falsa realidade que apenas existe no plano mediático que permite a Passos proferir um discurso delirante enumerando sucessos, e Cavaco Silva designar tarefas que esse governo nunca irá desempenhar.
O recrudescimento da gritaria anticomunista é particularmente significativo. Nada indica que o PCP venha a assumir quaisquer responsabilidades governativas, ou que algum dos seus objectivos políticos de fundo venha a ser assumido por um governo que tenha o PS como base. O que tal gritaria traduz é apenas o velho e atávico ódio da reaccionária grande burguesia portuguesa aos trabalhadores e ao povo. E à democracia.
Os grandes órgãos de comunicação social estão nas mãos do grande capital. O seu comportamento nestes dias confirma que nas condições do Portugal de hoje, como nas do de ontem, o poder do grande capital e um regime verdadeiramente democrático são incompatíveis.
Os Editores de odiario.info

OUTRAS VOZES



 Do Jornal i – entrevista a Pacheco Pereira - 31/10/2015
 (extrato)
- Mas fala da comunicação social sempre como se fosse uma entidade independente, sem laços sociais.

Não acho que seja uma entidade independente, pelo contrário, estou a enunciar as suas dependências, mas acho que é uma instância que não pode ser reduzida ao determinismo económico e político. É uma instância com autonomia, e essa autonomia não é toda boa, parte dela é corporativa: são as ideias circulantes da classe e o seu corporativismo e comportamento de rebanho, que diminui o seu pluralismo. É uma comunicação social muito moldada por uma aproximação ao político, que é em grande parte a que gerou Marcelo Rebelo de Sousa. Marcelo é o grande educador do jornalismo político, e deu-lhe a base interpretativa: os cenários, uma atenção ao calendário, os factos políticos, a que o Portas acrescentou as frases assassinas e os sound bites. E uma parte dos jornalistas formou-se nessa escola dupla: a do “Independente” e a do “Expresso”. E isso faz com que tenham uma aproximação muito pouco criativa e reagem muito mal às mudanças. Sempre me recusei a fazer cenários sobre estas eleições, dizendo que depois das eleições tudo muda tudo. Nós na história sabemos que o principal elemento dela é a surpresa, e estamos fartos de ter surpresas: o Estado Islâmico é uma surpresa, a Grécia não estava inscrito nem como começou nem como acabou. Há muita coisa nova, e que altera as regras de jogo. A elite jornalística, sobretudo a que faz opinião, que é muito próxima das direcções e dos donos e dos seus interesses, tem tendência a não se querer desdizer a si própria. E como nos últimos quatro anos muita gente alinhou no “é inevitável a austeridade”, “não há alternativa” e num discurso catastrofista, perante a possível alternância não podem perder a face. Isso aliado a uma enorme ignorância dá coisas como dizer que vamos regressar ao PREC e jornais que dizem barbaridades como quem manda em Portugal é o PCP. É de doidos.

- Como interpreta esta quase histeria quanto a um possível governo com apoio do PCP e do BE? 

Há um mito deste governo e o programa da esquerda. O que pode haver com um governo de António Costa é o que se chamava antigamente um programa mínimo. O programa máximo do PCP e do BE é a revolução: é mudar as relações económicas e sociais. Mas um acordo mínimo pode ser muito importante. Significa dar àqueles que nestes últimos anos sofreram uma folga considerável, e isso tem um valor político, podem sempre dizer fomos nós que conseguimos isso no meio de grandes dificuldades. Vejo às vezes comentadores dizerem que o PC vai perder a sua força na CGTP, esquecendo que há um aspecto importante na força das instituições que é aquilo que os americanos chama “deliver”, quer dizer, dar resultados. É um facto que, nestas circunstâncias difíceis, se não houvesse sindicatos isto seria muito pior. Estamos num período de grande mudança, como diz aquele provérbio atribuído aos chineses que na realidade é inglês, “que vivas tempos interessantes”, que é uma maldição e portanto exige homens e mulheres grandes.

sábado, 31 de outubro de 2015

SABER LER



Público (aqui)

Sem sombra de pecado
António Guerreiro
Sobre Miguel Relvas, não me vem nada à mente. Mas, tendo deparado há uma semana com um artigo dele neste jornal (servia-lhe de título um decorativo quiasmo: Entre a força da razão e a razão da força), fui levado ao exercício ocioso de tentar perceber esta reaparição. Segundo os preceitos de uma moral antiga e dos códigos não escritos daquilo a que os franceses chamam bienséance, esta “figura” teria de expiar em silêncio a sua “culpa”, que não é nenhuma culpa trágica, mas é inibitória porque entra no território da vergonha, como acontece a quem fica nu numa praça pública. Mas a salvação que dantes se obtinha pela retirada obtém-se agora pela exposição mediática. A mediocracia e o clero que a governa têm um poder amnésico e de branqueamento. Miguel Relvas pode ter passado de fugida pela universidade, mas, como muitos dos seus pares, aprendeu por observação directa que o mundo separado e organizado através dos media, a que Guy Debord chamou “espectáculo”, funciona de acordo com esta regra: “O que aparece é bom, o que é bom aparece”. Ele sabe que para reconquistar a bondade, para obter a reparação com toda a leveza, só precisa de aparecer ostensivamente. A exposição transforma-se num valor e garante a recuperação de uma imagem para além do bem e do mal. Se, porém, oferecermos alguma resistência a este processo que consiste em manipular a percepção colectiva e apoderar-se da memória, até a fotografia do autor do artigo passa a ser vista a uma outra luz: o que vemos nela, obstinadamente, é uma figura que ostenta um sorriso onde se mistura o cinismo com a inconsciência de um cartoon, como se uma personagem de Robert Walser se viesse cruzar com um boneco saído dos estúdios Disney. Um artigo excelente, mesmo tendo por título um quiasmo pindérico, seria a única coisa capaz de interromper este olhar cruel sobre a fotografia. Mas ele é apenas indigente, de maneira que não conseguimos levantar o olhar da fotografia e deixar de ver nela um instrumento da estratégia da exposição branqueadora. Temos um texto para ler, mas interpõe-se a pessoa do seu autor. Para a maioria dos leitores, esta percepção tem certamente o seu lado paródico, mas quem, por profissão e empenhamento político-intelectual, se preocupa com as questões do jornalismo é levado a pensar, a partir daqui, nalgumas questões mais gerais. Os jornais ditos de “referência” (se isso significa hoje alguma coisa) fizeram do eclectismo uma profissão de fé ou uma tentativa de não excluir ninguém, para se dirigirem a um universo muito alargado de leitores. Daí a impressão que temos de que há “quotas” para toda a gente se sentir representada, sobretudo nas secções de opinião. E este carácter aparentemente abrangente estende-se a todo o jornal, de maneira que o que se obtém é sempre um produto demasiado híbrido, movendo-se num espaço da hesitação que visa contemplar o chamado “leitor médio”, cuja existência está tão atestada como a do unicórnio. E no que diz respeito aos temas da cultura, essa ideia tornou-se um terrível factor de exclusão. À força de querer agradar a gregos e a troianos, acaba-se por não agradar a ninguém. Diga-se, em boa verdade, que o pressuposto da “mediania”, ou mesmo do não-saber, está por todo o lado: o discurso político é elementar para o cidadão, tratado como uma criança, “perceber lá em casa”; os livros são editados, divulgados e comercializados a pensar em quem geralmente não quer saber de livros; e o melhor é nem querer saber o que manifestam as “manifestações culturais”.