quinta-feira, 5 de novembro de 2015
quarta-feira, 4 de novembro de 2015
A agenda mediática
O que é importante é vivermos com medo. E, não bastam os fantasmas da situação política (medo dos russos), da situação económica (medo dos alemães), da situação social (medo dos gregos), da situação da segurança (medo dos moiros), vêm também agora e insistentemente com a questão da saúde.
E há um dia para cada doença e uma causa para cada dia, sempre uma das principais causas da doença que é sempre uma das principais causas de morte.
E assim nos vão causando tanto medo de morrer que nem vivemos.
Basta! Toda a notícia que se repete até não se poder ouvir é má informação. Tudo o que é demais faz mal à saúde. E basta!
terça-feira, 3 de novembro de 2015
Já ninguém diz o meu jornal, o nosso jornal
SOBRE O RUÍDO DE FUNDO
Entrei nas páginas dos
diários em 1960 (Diário de Lisboa/Suplemento Juvenil). Um latino socorrer-se-ia
da vulgata In illo tempore. Um
português do vulgo coçaria a cabeça: Foda-se!
Há que tempos! Um coronel do Antigo Regime interpelaria uma ordenança do
Novo Regime: O gajo resistiu ao lápis?
Ainda escreve? Não o tenho visto. Nem sequer na Necrologia. Vos digo: não
fujo ao In illo na construção do
presente. Arreigadamente. Serenamente. Com eterna nostalgia e fraterna rebelião.
Numa fortaleza fixa (de papel), extensão da fortaleza móvel (cibernáutica). Sou
um combatente todo-o-terreno. À superfície da Terra. Sê-lo-ei debaixo da terra.
Há
que tempos!
Entrei nas páginas dos jornais quando as
máquinas de escrever falavam. Na altura, além dos animais, também os
jornalistas falavam. Além disso, escreviam, discutiam, zangavam-se,
conversavam, contavam anedotas. Quase sempre em voz alta. As direcções e as
chefias (pelo menos, algumas) participavam no frenesim do nascimento quotidiano
do jornal. Os colaboradores, os tipógrafos, os administrativos, os motoristas,
os contínuos também integravam a sinfónica. A Redacção era um campo aberto, de
fogo cruzado. Comecei a aprender que era essencial ter boca para escre(ver).
Descobri que falar era pensar alto e redundava num expresso compromisso. Com a
Redacção, a Sociedade, a Cultura, a Língua, a Civilização. Consequentemente,
prenúncio de acção. Lúcida e determinada. Liberta e libertadora. Mas o
matraqueado da máquina de escrever ficou como marcador ambiental. A Redacção
assemelhava-se, a certas horas de ponta, a um pavilhão fabril e febril, a um
concerto de teclados. Não é que tenha saudades das velhas máquinas.
Digo-vos. Tenho saudades do ruído de fundo.
Ouvi dizer que a mordaça de alta tecnologia
e baixa ideologia se impôs, pouco a pouco, de Sul para Norte. Os computadores
não falam. Já se sabia. São perigosíssimos. Ardilosos. Como certas doenças. E
os jornalistas? Pouco falam ou falam de insignificâncias ou do importante para
o business. Não é de agora, não é.
Mas o mal alastrou. Agudizou-se. Foi duro saber e confirmar. Dizem-me que
bem-pensar é o que está dito, que contra-agir é interdito. Também consta que os
leitores dão mostras de impaciência com a quietude ou a insonorização dos
teclados. A voz da rua não reconhece o produto
como seu. Já ninguém diz o meu jornal,
o nosso jornal, a não ser algum
accionista, governante ou banqueiro. Sei lá: algum publicitário de açaimos ou
algum pajem de Anfitrião ou de call
center da Nova Mocidade Portuguesa. Sei lá: um dos que confundem Imprensa
com empresa ou central de fretes, Rádio com amplificador de feirante ou
festivaleiro, Televisão com escola de massas neerdenthalizadas, narcotizadas
com spray de écran.
Sei lá. Isto é: bem sei. Sei lá: bem
avisei.
Convidaram-me a visitar uma PLM/Plataforma
Logística Multimédia. Hesitei. Juraram-me que era uma antiga redacção.
Objectei. Já sabia que os computadores trabalhavam pela calada. Preveniram-me
que os jornalistas cerravam os lábios por causa da gripe NC/Nova Censura, que
afecta sobremaneira a classe desde que o poder das redacções foi esvaziado na
Lei de Imprensa; desde que privatizaram, rapidamente e em força, o Sector de
Comunicação Social Público; desde que iniciaram a limpeza da geração das
conquistas democráticas, propondo rescisões
amigáveis e apertando a grelha cívica das admissões; desde que as entidades
patronais deixaram cair o princípio de negociação; desde que se concedeu
Carteira Profissional a todos os que assinavam o nome e juravam fidelidade aos
Donos Disto Tudo; desde que encerraram a Caixa de Previdência, mandando os
beneficiários e os seus descontos para as urgências do adiamento e do caos, os
corredores da vida ou morte lenta.
Sinto a falta de ruído. A minha última
máquina foi uma Messa. Se a interrogarem, fará saltar a tecla C: este tipo é Camarada. Se fizerem a mesma pergunta a
um computador, também é capaz de fazer saltar a tecla C: este tipo é Chip. É certo que sempre houve de tudo.
Nas farmácias dos espíritos como nas farmácias dos corpos. É certo que também
hoje há profissionais competentes, criativos, combativos e honrados.
Quantos?
E onde?
Marquemos encontros de gerações.
Um viril plenário contra o silêncio.
CÉSAR PRÍNCIPE
III
Encontro de Gerações JN, Coimbra (O Cantinho dos Reis), 31/10/2015
domingo, 1 de novembro de 2015
Uma comunicação social hegemonizada pela direita
Nota dos
Editores de odiario.info
Uma
comunicação social hegemonizada pela direita
A situação política decorrente das
eleições de 4 de Outubro permanece incerta. Mas a alteração que introduziu na
correlação de forças parlamentar tem produzido algumas importantes clarificações.
Uma delas diz respeito ao panorama
dos grandes órgãos de comunicação social, e à hegemonia da direita em todos
eles, da linha editorial à esmagadora maioria dos comentadores e cronistas. De
boa parte já era conhecido o reaccionarismo e a cega fidelidade ao grande
capital. Outros passaram da justificação “técnica” das bárbaras políticas de
exploração, desigualdade e marginalização social que a actual crise do
capitalismo agudizou - sob a forma de “memorandos” e outras - ao mais
cavernícola anticomunismo. Outros passaram de uma falsa “esquerda” a posições
de extrema-direita. Todos dispõem de todo o espaço e de todo o tempo para
produzirem um massacre ideológico diário, repetindo e partilhando
obcessivamente os mesmos argumentos, os mesmos preconceitos e os mesmos
espantalhos.
A informação é manipulada e a
realidade é moldada a esta avassaladora campanha. A mesma comunicação social
que permitiu que o governo PSD/CDS fizesse passar durante mais de um ano os
seus falsos “sucessos” na economia e no emprego trata agora a tomada de posse
do governo de Passos e Portas como se tal encenação constituísse uma realidade.
E é essa falsa realidade que apenas existe no plano mediático que permite a
Passos proferir um discurso delirante enumerando sucessos, e Cavaco Silva
designar tarefas que esse governo nunca irá desempenhar.
O recrudescimento da gritaria
anticomunista é particularmente significativo. Nada indica que o PCP venha a
assumir quaisquer responsabilidades governativas, ou que algum dos seus
objectivos políticos de fundo venha a ser assumido por um governo que tenha o
PS como base. O que tal gritaria traduz é apenas o velho e atávico ódio da
reaccionária grande burguesia portuguesa aos trabalhadores e ao povo. E à
democracia.
Os grandes órgãos de comunicação
social estão nas mãos do grande capital. O seu comportamento nestes dias
confirma que nas condições do Portugal de hoje, como nas do de ontem, o poder
do grande capital e um regime verdadeiramente democrático são incompatíveis.
Os Editores de odiario.info
OUTRAS VOZES
Do Jornal i –
entrevista a Pacheco Pereira - 31/10/2015
(extrato)
- Mas
fala da comunicação social sempre como se fosse uma entidade independente, sem
laços sociais.
Não
acho que seja uma entidade independente, pelo contrário, estou a enunciar as
suas dependências, mas acho que é uma instância que não pode ser reduzida ao
determinismo económico e político. É uma instância com autonomia, e essa
autonomia não é toda boa, parte dela é corporativa: são as ideias circulantes
da classe e o seu corporativismo e comportamento de rebanho, que diminui o seu
pluralismo. É uma comunicação social muito moldada por uma aproximação ao
político, que é em grande parte a que gerou Marcelo Rebelo de Sousa. Marcelo é
o grande educador do jornalismo político, e deu-lhe a base interpretativa: os
cenários, uma atenção ao calendário, os factos políticos, a que o Portas
acrescentou as frases assassinas e os sound bites. E uma parte dos jornalistas
formou-se nessa escola dupla: a do “Independente” e a do “Expresso”. E isso faz
com que tenham uma aproximação muito pouco criativa e reagem muito mal às
mudanças. Sempre me recusei a fazer cenários sobre estas eleições, dizendo que
depois das eleições tudo muda tudo. Nós na história sabemos que o principal
elemento dela é a surpresa, e estamos fartos de ter surpresas: o Estado
Islâmico é uma surpresa, a Grécia não estava inscrito nem como começou nem como
acabou. Há muita coisa nova, e que altera as regras de jogo. A elite
jornalística, sobretudo a que faz opinião, que é muito próxima das direcções e
dos donos e dos seus interesses, tem tendência a não se querer desdizer a si
própria. E como nos últimos quatro anos muita gente alinhou no “é inevitável a
austeridade”, “não há alternativa” e num discurso catastrofista, perante a
possível alternância não podem perder a face. Isso aliado a uma enorme
ignorância dá coisas como dizer
que vamos regressar ao PREC e jornais que dizem barbaridades como quem manda em
Portugal é o PCP. É de doidos.
- Como interpreta esta quase histeria quanto a um possível governo com apoio do PCP e do BE?
- Como interpreta esta quase histeria quanto a um possível governo com apoio do PCP e do BE?
Há um mito
deste governo e o programa da esquerda. O que pode haver com um governo de
António Costa é o que se chamava antigamente um programa mínimo. O programa
máximo do PCP e do BE é a revolução: é mudar as relações económicas e sociais.
Mas um acordo mínimo pode ser muito importante. Significa dar àqueles que
nestes últimos anos sofreram uma folga considerável, e isso tem um valor
político, podem sempre dizer fomos nós que conseguimos isso no meio de grandes
dificuldades. Vejo às vezes comentadores dizerem que o PC vai perder a sua
força na CGTP, esquecendo que há um aspecto importante na força das
instituições que é aquilo que os americanos chama “deliver”, quer dizer, dar
resultados. É um facto que, nestas circunstâncias difíceis, se não houvesse
sindicatos isto seria muito pior. Estamos num período de grande mudança, como
diz aquele provérbio atribuído aos chineses que na realidade é inglês, “que
vivas tempos interessantes”, que é uma maldição e portanto exige homens e
mulheres grandes.
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